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"Beef" se reinventa no 2º ano com reflexões sobre ciclos de ressentimento

Por Reinaldo Glioche

Três anos após se tornar fenômeno da Netflix e levar múltiplos prêmios Emmy, “Beef” (ou Treta na versão brasileira) retorna em 2026 para sua segunda temporada com uma proposta ousada: manter a essência emocional que consagrou a série — a exploração de como pequenas rusgas entre desconhecidos desencadeiam ressentimentos profundos —, mas trocar completamente o elenco e o cenário. Desta vez, o palco é o sofisticado clube de campo Monte Vista Point, em Montecito, Califórnia, onde duas gerações de casais se veem envolvidas em uma teia de chantagem, ambição e desespero.

A trama central nasce de um momento aparentemente banal: os noivos Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton), funcionários de baixa patente do clube, flagram acidentalmente uma briga feia entre Josh (Oscar Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan), o gerente geral casado com a designer de interiores do local. Naturalmente, a geração Z filma tudo. O vídeo torna-se a primeira “rusga” — aquele pequeno corte inicial que, como na temporada anterior, rapidamente se transforma em algo muito maior e mais perigoso.

O que se segue é uma dança complexa entre dois casais em colapso. Josh e Lindsay, apesar da aparência de conforto, afundam em dívidas e em um casamento sem sexo e sem diálogo. Ashley e Austin, por sua vez, acreditam ser mais estáveis, mas carregam suas próprias fissuras — especialmente a ingenuidade típica de jovens que confundem fluência digital com habilidades de vida real. Eles pensam que são um casal melhor, mas não estão livres de conflitos, uma fragilidade que a série expõe com precisão cirúrgica.

Fotos: Divulgação

A crítica social permanece presente, embora com alguma diluição a respeito das mazelas do capitalismo. Ainda assim, a temporada ganha densidade com a inclusão da Chairwoman Park (a impecável Youn Yuh-jung), bilionária dona do clube cujos esquemas macabros, incluindo assassinatos e chantagens, impulsionam a trama na reta final.

Mas é no plano emocional que a segunda temporada de “Beef” realmente brilha. Oscar Isaac e Carey Mulligan, reunidos novamente após “Drive” e “Inside Llewyn Davis”, constroem uma química devastadora. Isaac, em especial, entrega um homem evasivo cujo desprezo pela clientela que atende ferve sob uma superfície controlada — até que explode com violência contida.

Do outro lado, Charles Melton humaniza Austin com uma doçura que esconde inseguranças profundas. Em entrevista ao site oficial da Netflix, o ator reflete sobre uma cena emblemática: quando Austin entrega uma Gatorade vermelha, sabor preferido de Ashley, a uma estranha, deixando a parceira com a versão amarela que ela detesta. “Naquele momento, ele estava tentando agradar outra pessoa. Se Ashley estivesse lá, ele a teria priorizado”, explica Melton. “Ele só quer agradar as pessoas.” Essa tendência se repete de forma mais grave quando Austin, após decidir fugir com provas contra a Chairwoman Park, acaba entregando-as à própria vilã para salvar Ashley — não por convicção, mas por falta de coragem para dizer “não”.

O criador Lee Sung Jin revela que o desfecho original previa o discurso de luto da Chairwoman Park no túmulo do marido, mas a equipe percebeu que “não era alguém por quem o público quisesse torcer”. A solução veio do conceito de samsara, presente no budismo e no hinduísmo: o ciclo eterno de amor, morte, vida e sofrimento. A cena final, oito anos no futuro, mostra Ashley e Austin ocupando exatamente os postos de Josh e Lindsay, com o mesmo tipo de tensão no carro de luxo. “Às vezes as coisas estão ótimas. Às vezes há uma estação em que não estão”, resume Melton.

As formigas — presentes desde o primeiro episódio até o último, assim como os corvos na temporada anterior — reforçam essa ideia de mente coletiva e padrões repetidos. Lee incentiva os espectadores a desenvolverem suas próprias teorias: “Minha parte favorita é ouvir o que as pessoas interpretam. Tenho minha própria interpretação, mas estou animado para ouvir o que pensam.”

Se por um lado a queda de audiência de quase 60% em relação à estreia preocupa quanto ao futuro da série antológica, por outro, a segunda temporada de “Beef” prova que Lee Sung Jin não tem medo de arriscar. Ao aprofundar a psicologia de quatro personagens principais em vez de dois, ele cria uma obra mais complexa e bem menos previsível. A mensagem final é clara: o conflito humano é cíclico, as dinâmicas de poder se replicam, e o paraíso de um é sempre construído sobre o inferno de outro. Como canta a banda Phoenix nos créditos finais: “Bem onde começa, termina.”

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