Redação Culturize-se
Até 24 de maio, o Instituto Tomie Ohtake recebe Existe uma vida inteira que tu não conhece, primeira exposição individual institucional de Allan Weber em São Paulo. Com curadoria de Ana Roman e Catalina Bergues, a mostra reúne cerca de 40 obras — entre esculturas, fotografias, instalações e vídeos — que tomam a cidade como campo de observação direta, explorando as dinâmicas de trabalho, circulação e sobrevivência que estruturam a vida urbana contemporânea.
Nascido e criado na comunidade 5 Bocas, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde ainda vive, Weber constrói uma produção profundamente enraizada nas experiências do território. Sua obra emerge das tensões e contradições da cidade, transformando materiais cotidianos em composições que operam simultaneamente como gesto poético e comentário social. Nesse processo, o artista articula o olhar de quem observa a cidade à distância com a vivência de quem depende diretamente dela para trabalhar.
A realização da exposição na Avenida Faria Lima, centro financeiro da capital paulista, adiciona uma camada simbólica ao projeto. O fluxo intenso de motoboys na região, trabalhadores essenciais para o funcionamento da economia urbana, aparece como um dos eixos da mostra. Durante sua permanência em São Paulo, Weber produziu parte das obras a partir do contato direto com esses territórios e suas dinâmicas, ampliando experiências já presentes em sua trajetória no Rio.

Entre os destaques está uma instalação de grandes dimensões composta por bancos de motocicleta, capacetes e mochilas de entregadores suspensos por elásticos. Ao deslocar esses objetos de suas funções originais, o artista altera a circulação do público e propõe uma reconfiguração sensorial do espaço expositivo. Em Nós que sustenta na raça, caixas-d’água empilhadas formam torres que evocam a paisagem das periferias urbanas, tensionando a fronteira entre escultura e arquitetura popular.
Outro núcleo relevante reúne trabalhos feitos com lonas utilizadas em bailes funk. Ao preservar rasgos, costuras e marcas de uso, Weber aproxima essas superfícies da abstração geométrica, sem romper com seus contextos de origem. Já na série Tamo junto não é gorjeta, iniciada durante a pandemia de COVID-19, o artista registra o cotidiano dos entregadores a partir de dentro desse circuito de trabalho, captando momentos de espera, exaustão e suspensão que marcam a rotina desses profissionais.
A exposição inclui ainda camisetas de times de futebol criadas por Weber, conectadas à Galeria 5 Bocas, fundada pelo artista em 2020. Mais do que um espaço expositivo, a galeria funciona como ponto de encontro e articulação comunitária, refletindo a dimensão coletiva que atravessa sua prática.
A mostra integra um conjunto de exposições simultâneas no instituto, ao lado de Profanações, de Pablo Lobato, e Etcétera, dedicada à trajetória de Isay Weinfeld, reforçando o diálogo entre diferentes gerações e práticas no campo da arte contemporânea.