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CAIXA Cultural Belém une arte, espiritualidade e sustentabilidade na Amazônia

Redação Culturize-se

A CAIXA inaugurou, neste mês, a CAIXA Cultural Belém, o primeiro espaço da instituição na Região Norte e o oitavo no país. Localizada no Armazém 6 do Porto Futuro, na Estação das Docas, a nova unidade soma 3.200 m² divididos entre três galerias e um teatro com 250 lugares, além de áreas de convivência, sala de oficinas, elevadores e rampas de acesso. O centro inicia suas atividades com duas exposições que dialogam diretamente com o território amazônico e o contexto global: “Espíritos da Floresta”, do coletivo indígena Movimento dos Artistas Huni Kuin (MAHKU), e “Paisagens em Suspensão”, com obras de nomes consagrados da arte brasileira.

Durante a inauguração, o presidente da CAIXA, Carlos Vieira, ressaltou o caráter simbólico e estratégico da nova unidade: “A CAIXA Cultural Belém marca um novo tempo para a difusão das culturas amazônica e brasileira, reforçando o compromisso da CAIXA e do Governo do Brasil com o apoio à arte, à pluralidade e ao patrimônio cultural do país. Este espaço também deixa um legado da COP30 para a população”.

A proposta da instituição é consolidar Belém como um novo polo cultural e educativo, promovendo exposições, espetáculos de teatro, dança e música, eventos literários e oficinas voltadas para a formação de público e inclusão social. Além de integrar o circuito oficial da COP30, a nova sede busca articular arte, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, estabelecendo um espaço de diálogo entre tradição e contemporaneidade, entre o território amazônico e o mundo.

Espíritos da Floresta: arte, espiritualidade e resistência

Com curadoria e expografia da pesquisadora afro-indígena Aline Ambrósio, a mostra “Espíritos da Floresta” reúne cerca de 30 obras inéditas do Movimento dos Artistas Huni Kuin (MAHKU), coletivo originário da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão, no Acre. As pinturas traduzem visualmente os cantos sagrados huni meka, que transformam a oralidade em imagem e dão corpo a uma arte de escuta espiritual. “Não estamos fora da Terra: somos a própria Terra”, afirma a curadora. “A exposição convida o público à florestania, o direito de pertencer à floresta, e à floresticidade, a condição de viver em comunhão com ela.”

O trabalho do MAHKU combina força espiritual e ação política. O lema do grupo, “vende tela, compra terra”, sintetiza o uso da arte como instrumento de resistência e de reconquista territorial. Os recursos obtidos com a venda das obras são destinados à compra de terras ao redor das aldeias Huni Kuin, protegendo a floresta e garantindo a autonomia do povo. A exposição apresenta pinturas, esculturas e instalações, além de um mural de 30 metros de largura por 4 de altura pintado pelos próprios artistas na fachada da CAIXA Cultural Belém — um gesto de ampliação simbólica da floresta dentro da cidade.

Nova unidade da CAIXA cultural, em Belém, no Pará | Foto: Divulgação

A expografia, inspirada na jiboia mítica Yube, mestra dos grafismos (kene) e guardiã do nixi pae (ayahuasca), transforma a galeria em um espaço de atravessamento espiritual. Para Ambrósio, “as obras do MAHKU são mais do que pinturas. São presenças vivas, manifestações da própria fala dos espíritos da floresta”. O projeto coincide com dois eventos de grande importância simbólica: a COP30, que transformará Belém em palco global de debates climáticos, e o Círio de Nazaré, que mobiliza milhões de devotos em torno da fé e da espiritualidade amazônica. Nesse cruzamento entre arte, religião e ecologia, o MAHKU se apresenta como uma voz direta da floresta, traduzindo seus cantos em apelos por equilíbrio e preservação.

Paisagens em Suspensão: entre memória, colapso e futuro

A segunda exposição que marca a abertura do espaço, “Paisagens em Suspensão”, reúne 50 obras de artistas fundamentais da arte brasileira, entre eles Cândido Portinari, Maria Martins, Frans Krajcberg, Adriana Varejão, Siron Franco, Anna Bella Geiger e Heitor dos Prazeres, além de mestres contemporâneos como Xadalu Tupã Jekupé e Ricardo Ribenboim. Com curadoria de Daniela Matera e Daniel Barreto, a mostra foi organizada em cinco núcleos temáticos e traz trabalhos de duas instituições ligadas ao IBRAM: o Museu Nacional de Belas Artes e os Museus Castro Maya.

O percurso da exposição aborda temas urgentes como devastação ambiental, expropriação de corpos e territórios, memória da terra e futuros ancestrais. As obras estabelecem pontes entre tempos e linguagens, sugerindo que as paisagens, naturais ou humanas, vivem em suspensão diante da crise climática e das desigualdades.

Um legado para o Norte e para o Brasil

A CAIXA Cultural Belém nasce como símbolo de descentralização cultural e reconhecimento da Amazônia como território de criação e reflexão. A união entre as exposições — uma de viés afirmativo e espiritual, outra de caráter histórico e crítico — traduz a missão do novo centro: promover a escuta dos povos da floresta e dos artistas brasileiros em toda sua diversidade.

Ao integrar arte, ancestralidade e sustentabilidade, o novo equipamento cultural amplia o mapa da cultura nacional e coloca Belém no centro de um debate global sobre clima, território e identidade.

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