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Anavitória abre o teto para a luz em Claraboia

Redação Culturize-se

Ana Caetano e Vitória Falcão sempre tiveram como marca a delicadeza e a sutileza. Mas em “Claraboia”, novo álbum da dupla, essa estética ganha contornos ainda mais íntimos, quase caseiros. O projeto nasceu de uma ideia gestada em 2022, quando Ana, em visita a uma exposição de Bárbara Kruger em Los Angeles, viu imagens que se refletiam como opostos complementares. A partir dali, surgiu a concepção de lançar dois discos irmãos: “Esquinas” (2024), urbano e superproduzido, e “Claraboia” (2025), cru e bucólico.

O processo criativo de “Claraboia” é tão importante quanto o resultado final. Para gravar, Anavitória se instalou em uma casa em Paranapanema, no interior paulista, e transformou a sala em estúdio. Ali, entre refeições simples, conversas na varanda, partidas de baralho e banhos de riacho, o álbum foi tomando forma. A atmosfera leve, marcada pela convivência com a equipe e pelos registros analógicos de Lívia — fotógrafa que acompanhou tudo e criou visualizers para cada faixa — se reflete na sonoridade suave e no clima confessional das canções.

Leia também: “Esquinas” demonstra mais do que evolução, a grandeza do duo Anavitória

O disco tem vinte faixas, mas foge da grandiloquência. A instrumentação é minimalista: violão, piano e alguns elementos eletrônicos discretos. A dupla canta em uníssono, quase sempre em tons baixos, criando a sensação de uma única voz. Vitória resume o espírito do projeto: “Não tem nada da cara dos discos antigos, mas traz a gente para o lugar mais cru e sincero. A canção pela canção. O puro do mais puro do que poderia ter sido.”

Entre os destaques está “Rua dos Abacateiros”, inventário de memórias e objetos que ecoa a poesia cotidiana de Nando Reis, com quem a dupla já dialogou em outros trabalhos. “Olhar Pra Você”, parceria com Bruno Berle, aponta para uma aproximação com a estética alternativa, longe do molde pop que consagrou Anavitória. Já “Em Voz Alta” é uma delicada reflexão sobre o gesto de ler, lembrando “Livros”, de Caetano Veloso. Há ainda “Isso É Deus”, canção com toques de folk e gospel, e “Aza”, talvez uma das composições mais bonitas da carreira da dupla, em que as vozes se fundem com maturidade.

Foto: divulgação

Mais do que um repertório, “Claraboia” é um retrato de um tempo. Cada elemento — do cachorro Manteiga, que ganhou música própria, ao bolo de cenoura de Eli, cozinheira que se tornou peça-chave do processo — integra a narrativa afetiva do álbum. Como se o ouvinte fosse convidado a entrar na casa de Paranapanema, sentar à mesa e dividir um pedaço de bolo antes de ouvir as canções.

Ao longo da trajetória, Anavitória sempre enfrentou as pressões da indústria, dos fãs e da mídia com uma postura firme, porém suave. A recusa em abrir mão da sensibilidade e da integridade ecoa em “Claraboia”. O álbum é menos sobre grandes arranjos e mais sobre presença, silêncio e cumplicidade. É, como define a própria dupla, um gesto de resistência que não grita — apenas sussurra.

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