Redação Culturize-se
A NBCUniversal revelou oficialmente, em maio, seu empreendimento mais ambicioso em entretenimento imersivo: Epic Universe. A inauguração não foi apenas um corte de fita padrão – contou com celebridades, fogos de artifício, drones coreografados e até narração de Steven Spielberg. Mas por trás do espetáculo, havia uma história mais profunda sobre as transformações do setor de mídia e a ousada aposta da Comcast no futuro da narrativa.
De um terreno árido nos arredores do Orange County Convention Center, a Epic Universe floresceu como um centro de entretenimento de mais de US$7 bilhões. A Epic Universe representa um dos maiores investimentos já feitos em parques temáticos – não só pela NBCUniversal, mas por toda a indústria do entretenimento. Num momento em que formatos tradicionais de mídia, como a TV a cabo, estão em declínio e o streaming continua instável em termos de lucratividade, os parques temáticos e experiências ao vivo emergem como motores confiáveis de receita e crescimento. Por isso, tanto a Comcast quanto a Walt Disney Company estão redobrando suas apostas. A Disney prometeu investir US$ 60 bilhões em experiências nos próximos dez anos, enquanto a Comcast, embora discreta quanto a números exatos, também está injetando bilhões.
E os retornos são concretos. Em 2024, a divisão de Experiências e Produtos de Consumo da Disney gerou US$ 34,2 bilhões em receita, com lucro operacional de US$ 9,3 bilhões. Os parques da NBCUniversal faturaram US$ 8,6 bilhões, com EBITDA de US$ 2,9 bilhões. Em resumo, experiências ao vivo não apenas estão agradando o público, mas estão superando outros segmentos de mídia.
“Não há melhor momento para estar nesse setor”, afirma Josh D’Amaro, presidente da Disney Parks, Experiences and Products, ao The Hollywood Reporter. Ele destaca a poderosa convergência entre narrativa, tecnologia de ponta e imersão física – uma combinação potente que o público atual deseja cada vez mais. O presidente da Comcast, Mike Cavanagh, complementa: “Você larga o celular, se envolve totalmente e vive tudo aquilo”.
A Epic Universe é a materialização desse conceito. No centro do parque está o Celestial Park, de onde os visitantes acessam “portais” que os levam a terras temáticas inspiradas nas propriedades intelectuais da Universal e em parcerias estratégicas. É possível entrar no mundo de Como Treinar o Seu Dragão, encarar monstros clássicos da Universal ou explorar os recantos de Super Nintendo World. Esse nível de imersão virou o novo padrão de excelência, dando continuidade ao sucesso de atrações como The Wizarding World of Harry Potter e Galaxy’s Edge, da Disney.
A disputa entre Disney e Universal não se restringe mais à Flórida. Ambas estão expandindo agressivamente em escala global. A Universal anunciou recentemente um enorme novo parque no Reino Unido, enquanto a Disney planeja um resort de nova geração em Abu Dhabi, que promete ser o mais “avançado tecnologicamente” até hoje. Essas iniciativas buscam alcançar públicos que não conseguem viajar para a Flórida ou Califórnia, mirando grandes mercados na Ásia, Europa e Oriente Médio.
Ainda assim, essas marcas vão além de montanhas-russas e fotos com personagens – elas são verdadeiras aulas de uso de propriedade intelectual (IP). A estratégia da Disney de integrar IPs em suas experiências remonta à Disneyland original, onde atrações baseadas em Peter Pan e Branca de Neve já estavam presentes no dia da inauguração. Com o tempo, aquisições como Star Wars, Marvel e Avatar turbinaram esse modelo.
Mas a estratégia da Disney vai ainda mais fundo, começando na concepção da história. “Quando Kevin Feige está pensando no próximo filme da Marvel, eu já estou lá”, conta D’Amaro. “Desde o início, já planejamos como trazer essas histórias à vida – nos parques, nos cruzeiros, nos jogos e nos produtos.”
A Universal segue uma abordagem complementar. Além de utilizar suas próprias propriedades, tem feito parcerias bem-sucedidas com detentores de direitos externos. A popularidade duradoura das áreas de Harry Potter e o sucesso de Super Nintendo World mostram que a Universal se tornou uma curadora confiável de IPs terceirizados, criando ambientes imersivos que alimentam vendas de livros, jogos e filmes futuros. “Não há criador que não gostaria de ver sua propriedade entregue ao mundo da maneira como fazemos nesses parques”, afirma Cavanagh.
Duelo de gigantes
À medida que Disney e Universal elevam o padrão da imersão, também experimentam novos formatos. A Disney está ampliando rapidamente sua frota de cruzeiros, com planos de dobrar de tamanho até 2031. Em 2025, o Disney Adventure começará a operar em Singapura, levando a magia ao alto-mar. A Universal, por sua vez, está diversificando com atrações em menor escala. O Horror Unleashed, conceito de casa mal-assombrada permanente, será lançado em Las Vegas, com uma segunda unidade prevista para Chicago. Já o parque compacto e familiar em Frisco, Texas – com personagens como Shrek, Trolls e Bob Esponja – oferecerá uma experiência diferente da Universal.

Mesmo em meio à rivalidade, ambas as empresas sabem que se beneficiam mutuamente dos investimentos – especialmente na Flórida. Novas atrações atraem mais turistas à região e, uma vez lá, muitos visitam ambos os parques. “Se algo novo for construído na região central da Flórida, como a Epic Universe, e isso atrair mais turistas, posso garantir que esse visitante novo… vai querer visitar o Magic Kingdom também”, disse D’Amaro numa recente conferência para investidores.
Apesar do otimismo, o setor de experiências não está isento de riscos. Os parques são caros – demandam anos de planejamento e construção, além de altos custos operacionais. A demanda pode ser instável, como ficou claro durante a pandemia de COVID-19, que paralisou o turismo. A visitação internacional aos EUA ainda está abaixo do ideal, e embora o público doméstico esteja suprindo a lacuna, os executivos permanecem cautelosos.
Outro ponto é a fadiga de IP. Depender fortemente de franquias específicas pode ser perigoso: se elas perderem relevância ou forem mal geridas, o interesse nas atrações associadas pode diminuir. Manter esses mundos atrativos e envolventes – visual e narrativamente – é um desafio constante.
Ainda assim, a promessa é irresistível. Em 17 de julho, no aniversário de 70 anos da abertura da Disneyland, o parque revelou um novo animatrônico de Walt Disney, no Main Street Opera House, recitando sua visão: “Continuamos seguindo em frente, abrindo novas portas, fazendo coisas novas, porque somos curiosos… Mas só espero que nunca nos esqueçamos de uma coisa: tudo começou com um rato.”
E é nesse espírito de curiosidade e reinvenção constante que a Epic Universe se apresenta como o mais novo capítulo de uma história iniciada em 1955. Com espaço infinito para crescer – tanto física quanto criativamente – fica claro que o futuro do entretenimento não estará apenas nas telas, mas também nos mundos que podemos atravessar, tocar e viver em conjunto.