Reinaldo Glioche
No próximo Dia dos Namorados, 12 de junho, chega aos cinemas “EROS”, o provocativo documentário de estreia da diretora Rachel Daisy Ellis; que já foi abordado nesta coluna. O filme mergulha no universo dos motéis brasileiros, explorando como esses espaços funcionam como microcosmos da sexualidade, do desejo e da solidão no país.
Produzido em parceria entre as produtoras Ponte e Desvia, com distribuição da Fistaile, o longa adota uma abordagem inovadora: dez participantes filmaram a si mesmos durante uma noite em suítes de motéis de diferentes regiões do Brasil, usando apenas seus celulares. Essa escolha de auto-registro permitiu capturar a intimidade de forma crua, sem mediações.
“Queria entender o que os motéis revelam sobre como nos relacionamos”, explica Rachel, cineasta brasileiro-britânica radicada em Recife e conhecida por produzir obras aclamadas como “Boi Neon” e “Divino Amor”. “Eles são lugares de liberdade, performance e refúgio emocional — e as histórias que surgiram falam não só de sexo, mas do desejo de se expor.”
A montagem de Matheus Farias (“Retrato Fantasma“) costura essas narrativas em uma reflexão sobre amor romântico, erotismo, solidão e auto-representação. O resultado é um mosaico de experiências que desafia tabus e expõe as complexidades das relações humanas em um país ainda dividido entre liberdade e conservadorismo.
Com passagens por mais de 16 festivais — incluindo a Mostra de Tiradentes e o CPH:DOX (Dinamarca) —, “EROS” marca a consolidação de Rachel como diretora. A escolha da data de estreia não é casual: ao lançar o filme no Dia dos Namorados, a equipe provoca uma discussão sobre afeto e desejo em meio às contradições brasileiras.
Um documentário ousado, sensível e necessário, que coloca a câmera onde ela raramente chega: no olhar de quem vive suas próprias histórias.