Redação Culturize-se
Olivia Walch passou anos mergulhada na ciência do sono, e seu novo livro, “Sleep Groove: Why Your Body´s Clock is So Messed Up” (ainda inédito no Brasil), é o resultado dessa pesquisa. É uma exploração fascinante sobre como o sono ideal não se resume a atingir a marca mágica de oito horas, mas envolve compreender os ritmos complexos do nosso corpo. O livro está repleto de insights que podem ter um impacto profundo na saúde e vida cotidiana.
Em entrevista ao The Numlock Podcast, Olivia falou sobre as complexidades dos ritmos circadianos, a importância da regularidade do sono em vez de apenas sua duração e por que o horário de verão permanente é uma péssima ideia. O trabalho de Olivia é ao mesmo tempo esclarecedor e prático, oferecendo aos leitores uma compreensão mais profunda de como alinhar suas vidas ao relógio natural do corpo.

O interesse de Olivia pela ciência do sono começou durante seus anos de faculdade, um período em que experimentava grande dificuldade para dormir. Na pós-graduação, Olivia decidiu priorizar o sono. Embora tenha notado alguma melhora, foi só depois de participar de um estudo do sono que experimentou uma transformação profunda. Durante meses, seguiu rigorosamente um horário de dormir às 23h30, usando um dispositivo para monitorar seu sono. Os resultados foram impressionantes: ela perdeu peso, sua pele melhorou e ela se sentia mais rápida e afiada. O segredo não era apenas dormir mais — era dormir regularmente.
Além do mito das oito horas
Um dos temas centrais de “Sleep Groove” é desmistificar a ideia de que dormir oito horas por noite é o único indicador de um sono saudável. Embora a duração seja importante, Olivia enfatiza que o ritmo é igualmente, se não mais, crucial. Nosso corpo opera com múltiplos ritmos circadianos, que regulam desde o sono até o metabolismo, a função imunológica e a reparação do DNA.
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Olivia compara a saúde do sono à latitude e longitude: assim como Madri e Nova York não estão próximas apenas por compartilharem a mesma latitude, alguém que dorme oito horas por noite não está necessariamente saudável se seu sono for irregular. O objetivo é alcançar um ritmo forte e consistente — o que Olivia chama de sleep groove (ritmo do sono).
Os ritmos circadianos são os relógios internos do corpo, programando processos de acordo com a necessidade. Eles estão profundamente ligados à exposição à luz, o que explica por que a vida moderna — com sua iluminação artificial e tempo de tela constante — pode desregular completamente nossos ciclos naturais.
Olivia explica que os ritmos circadianos são tão arraigados em nós que, mesmo se estivéssemos em um planeta com um dia de 28 horas, provavelmente ainda manteríamos um ciclo de 24 horas. Esse ritmo determina quando hormônios como a melatonina são liberados, quando somos mais fortes e quando nosso corpo se repara. A interrupção desses ritmos, seja por um sono irregular ou por exposição excessiva à luz à noite, pode ter sérias consequências para a saúde.
A eletricidade e a iluminação artificial alteraram fundamentalmente o funcionamento do nosso corpo. Historicamente, os humanos viviam em sintonia com o ciclo natural de luz e escuridão, mas hoje podemos ter luz a qualquer momento. Isso achatou nossos ritmos circadianos, reduzindo sua intensidade e dificultando funções essenciais, como a reparação do DNA e a resposta imunológica.
Olivia compara isso a pisar no ritmo de uma música que deveria ser forte e bem marcada. O resultado é um ritmo “fraco e achatado”, que acumula riscos ao longo do tempo e contribui para condições como hipertensão, diabetes e transtornos de humor.
Um ritmo circadiano robusto traz inúmeros benefícios, desde um sono melhor e um humor mais equilibrado até um desempenho físico aprimorado. Olivia cita estudos que mostram que a regularidade do sono é um melhor preditor de longevidade do que a própria duração do sono. Pessoas com padrões de sono irregulares têm maior probabilidade de morrer mais cedo, desenvolver doenças crônicas e enfrentar problemas de saúde mental.

Fotos: Reprodução Instagram
Por outro lado, manter um sleep groove forte pode otimizar desde o desempenho esportivo até a eficácia dos medicamentos. A pesquisa de Olivia até aborda a chamada “medicina circadiana”, que busca sincronizar a administração de medicamentos com os ritmos naturais do corpo para maximizar a eficácia e minimizar os efeitos colaterais.
Olivia é uma crítica ferrenha do horário de verão permanente, argumentando que ele agravaria ainda mais os maus hábitos de sono da sociedade moderna. O horário padrão, com suas manhãs mais claras e noites mais escuras, está muito mais alinhado aos nossos ritmos naturais. Já o horário de verão permanente forçaria as pessoas a acordarem no escuro durante o inverno, desregulando seus ritmos circadianos e causando problemas de saúde crônicos.
Ela também defende horários escolares mais tardios para adolescentes, cujos ciclos naturais de sono são naturalmente mais atrasados do que os dos adultos. Obrigar um adolescente a acordar às 5h30 para ir à escola equivale a um adulto acordar às 3h30 — uma prática cruel e contraproducente.
O futuro da ciência do sono
O trabalho de Olivia faz parte de um movimento crescente para redefinir a saúde do sono. Ao mudar o foco da duração para a regularidade e o ritmo, podemos descobrir novas formas de melhorar nosso bem-estar. Seu livro é um chamado à ação, incentivando os leitores a respeitar os ciclos naturais do corpo e criar uma rotina que favoreça, em vez de atrapalhar, seu sleep groove.