Atriz prestigiou première londrina do longa ao lado de Selton Mello e Walter Salles, que bateram um papo com Culturize-se sobre a obra e as expectativas para chegar ao Oscar
Por Patrícia Dantas | Especial para o Culturize-se de Londres

“Ainda Estou Aqui” teve sua estreia no Reino Unido na noite deste domingo (13), com uma apresentação especial na 68ª edição do Festival de Cinema de Londres.
Realizada no Royal Festival Hall, a première contou com a presença do diretor Walter Salles e dos atores protagonistas, Fernanda Torres e Selton Mello.
Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui”, que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Veneza, se passa no início dos anos 1970 no Rio de Janeiro, quando o Brasil se encontra sob o comando de uma ditadura militar. A família Paiva, liderada por Rubens, um ex-deputado federal, e sua esposa Eunice, vê sua vida virada completamente do avesso quando ele é preso ilegalmente pelas autoridades.
Para cuidar dos cinco filhos, Eunice precisa se reinventar e volta à faculdade, enquanto tenta incessantemente descobrir a verdade sobre o desaparecimento de seu marido, que nunca mais foi visto, e luta por justiça.
“Acho tão interessante que, no início, ela é uma dona de casa de classe alta. Então ela serve o café, ela põe as crianças pra dormir, ela é uma coadjuvante importantíssima, mas uma coadjuvante na família. Quando o Rubens é morto e torturado, essa mulher assume a liderança. Então acho que é um filme profundamente feminista. Eu acho bonito a maneira como ela vai, aos poucos, primeiro entendendo que o que ela tinha, não existe mais. E depois como ela vai se reinventando e tomando a dianteira da família e aprendendo a lidar com coisas como dinheiro”, disse Fernanda em entrevista ao Culturize-se no tapete vermelho.
“Ela é uma mulher extraordinária, isso sem nunca ter autopiedade em público e sem nunca ter querido aparecer, o que hoje em dia é raro. Ela é uma mulher de uma enorme dimensão. Eu vi as entrevistas dela e falei: ‘Meu Deus, como é que vou chegar nisso? Nessa sutileza, nessa honestidade?’ Estou feliz com esse filme, eu acho que a gente honrou a Eunice”, acrescentou a estrela.
Na ocasião, Fernanda, de 59 anos, também comentou o fato de que o filme será o representante do Brasil para concorrer a uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional na disputa pelo Oscar em 2025.
“Eu acho que parece, assim, o topo da ladeira. Acho que é uma indústria pesadíssima e já é um milagre a gente estar com as críticas que a gente está, porque é um filme pequeno pro mundo. É um filme falado em português. Um filme como esse, já é incrível que ele esteja sendo escolhido para tantos festivais. Nós estamos em todos os festivais mais importantes do mundo. Ganhamos um prêmio hoje no Canadá, ganhamos um prêmio de roteiro em Veneza, fomos ovacionados. As críticas são… Eu já considero incrível o que está acontecendo.”

Repercutindo o hype em torno de uma possível indicação na categoria de Melhor Atriz na premiação da Academia, ela disparou, com humildade:
“A gente tem que ser realista, é um ano muito forte de atrizes. Só de eu estar na shortlist, já é um milagre.”
Caso Fernanda consiga a façanha, ela seguirá os passos de sua mãe, Fernanda Montenegro, que foi indicada na mesma categoria em 1999, pelo filme “Central do Brasil”, porém o prêmio foi para Gwyneth Paltrow, por sua atuação em “Shakespeare Apaixonado”.
Preparação para o filme
Segundo Walter Salles, o livro de Marcelo Rubens Paiva e o contato com os membros de sua família foi essencial para trazer a história às telonas.
“Nada teria sido possível sem o livro do Marcelo Rubens Paiva. Ele reconstrói não só a história individual de sua família, mas, ao mesmo tempo, ele reconstrói a memória coletiva de um país. A memória do Brasil durante os 30 anos através da compreensão de que a Eunice Paiva tinha sido a raiz daquela família durante décadas. E essa percepção é uma que nasce do livro, eu conhecia a família, conhecia a casa que tá no coração do filme, mas não teria chegado nessa possibilidade de compreensão e dessas camadas sem o livro. Eu não teria chegado lá sem eles e sem ouvir cada membro dessa família, cada um dos cinco filhos, que nos deu informações para além do livro.”
Ele continuou: “O livro daria uma minissérie, porque ele era tão rico e polifônico que tudo era possível. Não é à toa que demoraram 7 anos para chegar até lá. É porque o livro era extraordinário e a gente tentou achar a parte mais ‘fílmica’ dessa história e trazê-la à tela.”
E quais sãos as impressões de Walter Salles sobre o Oscar?
“Chega um momento em que o filme deixa de ser da família que o criou, e ele começa a voar um pouco sozinho. Estamos nesse momento em quem o filme está tendo vidas diferentes nos festivais. E a gente tá aqui para apoiá-lo e dar as melhores chances. Daí a saber o que vai acontecer, eu não tenho essa bola de cristal (risos). Eu sou cético por natureza, então não espero nunca nada. Acontecem coisas. Hoje, por exemplo, nós ganhamos um prêmio muito legal, que é um prêmio da audiência num festival no Canadá. Essas coisas acontecem, aconteceu por conta do filme e nenhum de nós estava lá.”
História comovente
Já Selton Mello, que interpreta Rubens Paiva no filme, contou como ficou emocionado ao ser escalado para o papel, uma vez que é um amigo muito próximo de Marcelo Rubens Paiva.
“O Marcelo é um cara que eu sempre adorei, respeitei. Sou fã do Marcelo. Minha geração foi completamente tocada por ‘Feliz Ano Velho’, que é o filme dele, o livro dele, que emocionou gerações e gerações e continua emocionando. Quis o destino que eu fizesse o pai dele um dia. Ele aprovou a ideia, adorou a ideia de ser eu. Foi muito tocante. Na verdade, eu ouvia as histórias do Rubens e a minha ideia era achar o espírito dele, mais do que como ele andava, como ele se movia. Minha ideia maior era descobrir como era a onda dele, como era o jeito dele. Como ele era com a família, com os amigos. Ele era um cara muito carinhoso, muito carismático. Então isso que eu busquei com o Waltinho pra trazer à tela”, explicou o ator.
“Me sinto muito bem fazendo parte de um filme que não é só belo, lindo e emocionante, mas também necessário. É importante lembrar nossa história para não cometer os mesmos erros”, adicionou o astro, que completa 40 anos de carreira em 2024.


Selton também fez questão de ressaltar que se sentiu honrado em trabalhar com Walter Salles pela primeira vez.
“O Walter é um maestro, um camarada adorável e um dos maiores diretores do mundo. Trabalhar com ele foi uma honra, esperava isso durante muito tempo e agora veio a chance. A Nanda é minha amiga de muito tempo, a gente já trabalhou várias vezes juntos. E trabalhar com ela é uma alegria, porque ela é muito divertida. Mesmo num filme tão denso, o bastidor é leve, porque ela é muito inteligente, muito sagaz. A gente se diverte muito juntos.”
Leia também: Em “Blitz”, Saoirse Ronan reverencia legado feminino na segunda guerra
Oscar à vista?
Finalizando a entrevista, Selton Mello deu sua opinião sobre uma possível nomeação do longa-metragem ao Oscar.
“É uma onda. É o maior barato, eu cresci assistindo ao Oscar e acho que a gente tem chances reais de estar ali entre os cinco na categoria de Melhor Filme Internacional junto com ‘Emilia Peréz’, ‘Sacred Fig’. Ao lado de ‘Ainda Estou Aqui’, eles estão muito bem na imprensa, na crítica, nas recepções ao redor do mundo. Acho que a gente tem chances reais. A gente tem chances também em outras categorias, mas acho que são mais difíceis. No entanto, Filme Internacional, que o Brasil não consegue há quase 30 anos, acho que desta vez vamos conseguir”, afirmou o galã, esperançoso.
Depois de participar do circuito de festivais internacionais, “Ainda Estou Aqui” estreia nos cinemas brasileiros em 7 de novembro. Contando ainda com Fernanda Montenegro, Dan Stulbach, Humberto Carrão, Marjorie Estiano, Antonia Saboia e Valentina Herszage no elenco, o título marca o primeiro longa de ficção de Walter Salles em doze anos desde “Na Estrada”, de 2012.