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Resistência à nudez cresce em meio à apropriação do corpo pela mulher

Sexóloga analisa falas dos atores Deborah Secco e Penn Badgley sobre corpos hiperssexualizados, e explica a resistência à nudez que tem crescido dia após dia

Por Beatriz França

A nudez feminina sempre foi colocada em prova e usada como “produto” enquanto dava dinheiro para os homens. Mas esse não é mais o cenário que encontramos em torno do assunto. No início do ano, Deborah Secco falou para a coluna da Mônica Bergamo sobre como o “planeta é super machista” e analisou como o corpo da mulher foi hipersexualizado e colocado em um local de “moeda de troca” durante muito tempo. 

“Eu sempre achei que meu corpo era o menos importante de mim. Expor ele ou não nunca foi uma questão. Eu não me resumo a isso”, refletiu a atriz durante entrevista para a colunista da Folha.

Deborah Secco foi duas vezes capa da extinta revista Playboy, aqui na edição de agosto de 2002 | Foto: reprodução/Internet

Em seguida, ela analisou sobre o que está por trás da exposição do corpo feminino: “Sabe qual o grande problema da exposição do corpo da mulher? É que quando dava dinheiro para os homens, ninguém criticava a nudez. Quando a gente toma as rédeas e começa a lucrar e a escolher, de fato, o que quer fazer, quando e como, isso perturba”.

Gislene Teixeira, sexóloga e especialista em relacionamentos, analisa essa declaração da atriz da Globo, que, segundo ela, traz “inúmeras reflexões […] e uma abordagem social complexa e polêmica”.

“A objetificação do corpo feminino é altamente rentável aos homens. Claro que, em partes, elas recebem por isso, mas, por mais que se ganhe, sempre acaba perdendo muito mais. É colocado preço na nudez feminina e com isso perde-se valor, propósito e, quiçá, interesse real como ser humano”, explica em entrevista ao Culturize-se.

Assim como Deborah Secco disse à Mônica Bergamo, Gislene confirma a teoria da atriz sobre o incômodo que a nudez feminina gera quando deixa de ser vantajoso para os homens: “Isso ganha força quando os ganhos e lucros começam a diminuir ou até mesmo desapareceram, uma vez que eles acham que têm controle, influência e poder sobre negociação e uso de corpos femininos”.

O debate em torno da nudez masculina

E não é só a nudez feminina que tem gerado debate atualmente. Em fevereiro também deste ano, o ator Penn Badgley, protagonista de “You“, revelou que pediu para diminuir a quantidade de cenas de sexo na 4ª temporada da série da Netflix, e sua declaração gerou comentários e debates em torno da nudez masculina. Na época, alguns espectadores até questionaram se as sequências de cenas íntimas constavam como traição, pois o ator é casado com a cantora Domino Kirke.

“Fidelidade em todos os relacionamentos, especialmente no meu casamento, é importante para mim. E chegou a um ponto em que eu não queria fazer isso”, disse Badgley na época durante o PodCrushed, seu próprio podcast. 

Penn Bradgley em “You”: desconforto com excesso de cenas sensuais | Foto: Divulgação

Em março, o ator conversou com a GQ Magazine e revelou ter ficado em choque com a reação das pessoas sobre seu pedido — tanto que descreve o acontecimento como algo “fora de proporção”.

Já para a Variety, ele explicou sobre seu pedido e a relação com os casos de Hollywood: “Poucas coisas eu diria com mais consagração. Esse aspecto de Hollywood sempre foi um pouco perturbador pra mim — e esse aspecto do trabalho, essa fronteira mercurial — sempre foi algo com que eu não quero brincar. Não costumava ser o caso”.

Para a sexóloga, o impacto do comentário de Badgley “não deixa de ser um retrato com viés machista” da sociedade. “Espera-se, em grande parte, que o homem seja e se exponha como um macho alpha, que explore cenas de sexo e virilidade. Pedir menos tempo de cenas de sexo na série vai contra a masculinidade esperada por todos”, explica Gislene Teixeira.

Resistência maior à nudez

Mas o que está por trás da resistência cada vez maior à nudez? Gislene Teixeira explica que há “inúmeros fatores e motivações por trás disso”, que vão desde aspectos culturais até experiências pessoais que podem não ter sido tão positivas e até traumáticas.

“Não podemos negar que ainda tem a questão associativa da nudez com sexo, em um País onde falar sobre sexo ainda é tabu, tem preconceito e é até constrangedor, sendo taxado como indecente. E isso faz com que a nudez seja vista, por uma parcela bastante significativa da população, como algo intimista e privado”, pontua.

A sexóloga reforça que essa resistência acaba sendo maior quando “não se respeita o limite do corpo do outro, e acaba tornando-se invasivo, agressivo e até criminoso”. Além disso, ela pontua que todas as questões de padrões de beleza também são levadas em consideração nesse debate, pois “existe uma sociedade que valoriza ‘embalagem à conteúdo'”. 

A sexóloga Gislene Teixeira | Foto: Arquivo pessoal

“Somos um País que investe mais em cirurgias plásticas do que educação e saúde, para ser aceito e fazer parte de um ‘clube’. As pessoas adoecem, pois não sabem como sair desse ciclo. Estamos em uma sociedade onde o corpo dita as regras de seu valor social, só que ao mesmo tempo as pessoas não estão mais suportando isso”, reflete durante conversa com o Culturize-se.

Gislene pontua que “a nudez requer segurança e inteligência emocional”, afinal, estamos falando dos (nossos) corpos. “A sociedade impõe e cobra por beleza, juventude e jovialidade, e exclui tudo o que for diferente disso. Tanto que existe os preconceitos, tabus, discriminações, gordofobia, etarismo e por aí vai… Talvez as pessoas estejam resistindo à nudez e buscando apenas um ser humano que tem um corpo e que não precise render-se a insanidade e mergulhar em um universo patológico para viver”, fala.

Nudez feminina x nudez masculina

Um estudo realizado pela Universidade de Mount Saint Mary (LA – EUA), em 2016, revelou que a nudez feminina é 3 vezes mais explorada do que a masculina no cinema. De acordo com a pesquisa, 26% das personagens femininas, até aquele ano, entre os 100 filmes mais vistos em 2014, nos EUA, apareceram nuas ou seminuas. Já os homens apareceram na mesma condição em apenas 9%. 

Quase dez anos depois e ainda é possível notarmos a diferença em que a nudez de cada gênero é abordada na televisão. Por exemplo, a nudez feminina acaba sendo muito mais comum na TV, pois o corpo da mulher é erotizado e objetificado, e elas acabam sendo colocadas em ambientes eróticos. Já a nudez masculina, quando não está em cena de sexo, é abordada em um cenário mais cotidiano e “normalizada”.

“A nudez feminina é sempre associada à hiperssexualização, erotismo, prostituição, monetização e, por vezes, até mesmo vulgarização e objeto de entretenimento adulto. Já a nudez masculina é vista como algo natural, força, virilidade e apreciação do corpo pelo corpo. São raras as vezes em que o corpo do homem é visto como objeto de desejo ou vulgarizado”, explica Gislene Teixeira. 

“Euphoria”, da HBO, é uma série que utiliza muito a nudez, tanto feminina como masculina | Foto: Divulgação

O advento do Onlyfans

Lançado em 2016, mas popularizado no país nos últimos 3 anos, o Onlyfans tem gerado diversos debates sobre a nudez e a monetização de conteúdos adultos. Algumas brasileiras não só investiram na plataforma, como têm gerado um lucro em torno das produções vendidas na rede social.

Gislene Teixeira, sexóloga e especialista em relacionamentos, finaliza analisando a plataforma de conteúdos adultos: “Há um mercado gigantesco em busca do que é ofertado nessa plataforma, mas também é importante que quem se expõe lá tenha consciência dos eventuais danos e consequências que possam vir a surgir. […] Além disso, há uma linha muito tênue entre exposição, lucros e corpos. A grande diferença está na autonomia e empoderamento de suas próprias escolhas”. 

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