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Fotógrafo baiano transformou religiosidade afro-brasileira em arte premiada pela ONU

Redação Culturize-se

Imagine ter sua obra reconhecida no Concurso Internacional de Arte para Artistas Minoritários, promovido pela ONU, que seleciona apenas oito talentos de todo o mundo. Esse é o feito de André Fernandes, premiado pelo ensaio fotográfico “Orixás”, registrado em 2014 no terreiro Ilê Axé Alaketu, em Salvador.

A conquista do prêmio coroa uma trajetória de 30 anos de dedicação à fotografia. Desde 1994, André Fernandes vem construindo uma carreira marcada por exposições individuais e coletivas, além de projetos que destacam a riqueza artística e cultural do Brasil. Entre suas realizações estão trabalhos como “Àtilende – O Nascimento de um Terreiro de Candomblé”, “Orixás por André Fernandes” e “Ojú Okan Orixás”, que ocupou o Palacete das Artes, em Salvador. Além disso, Fernandes participou do projeto PEBA, uma iniciativa que une artistas de Pernambuco e Bahia, atualmente em cartaz na Caixa Cultural de Recife.

A conexão com o Candomblé e a cultura negra

Natural de Salvador, André encontrou sua maior inspiração no cotidiano da cidade, especialmente na cultura e na religiosidade negra. Essa proximidade o levou a se aprofundar no universo do Candomblé, que desde 2009 é o foco principal de sua produção artística. “Documentar os Orixás é uma forma de preservar a memória afrodescendente e destacar a beleza e a força dessa religião. Cada detalhe, cada demonstração de fé carrega uma ancestralidade profunda e merece ser valorizada”, afirma o fotógrafo.

Foto: Mai Katz

O ensaio premiado, “Orixás”, é fruto de anos de trabalho e dedicação. Realizado entre 2012 e 2014, o projeto buscou captar a essência das divindades do Candomblé por meio de suas vestimentas, adornos e rituais. “Foram muitas trocas, conversas e pesquisas para reunir os elementos que compõem as imagens. Cada foto reflete as vestes e adereços usados nas festas cíclicas e obrigações do terreiro”, explica André.

O ensaio transcende a estética ao trazer à tona a espiritualidade e a força cultural do Candomblé. Não à toa, foi reconhecido pela ONU e exposto em uma mostra coletiva em Genebra, Suíça, ampliando a visibilidade da religião de matriz africana e seu papel na identidade brasileira.

Para André, sua arte vai além da imagem: é uma ferramenta para promover diálogos e combater preconceitos. Fotografar grupos minoritários e a religiosidade afro-brasileira é, para ele, uma forma de abrir caminhos para a reflexão. “A fotografia tem o poder de fomentar debates. Quanto mais falamos sobre o Candomblé e desmistificamos seus significados, mais contribuímos para reduzir o preconceito em torno dessa cultura tão rica e singular”, ressalta.

Leia também: “Nickel Boys” aborda racismo estrutural de maneira intrigante

O impacto do prêmio e as conexões com a diáspora africana

A premiação da ONU teve desdobramentos significativos na carreira de André. Além de impulsionar sua visibilidade internacional, a oportunidade permitiu ao fotógrafo aprofundar seus conhecimentos sobre as conexões históricas e culturais entre o Brasil e a África. Ele também refletiu sobre como a arte pode atuar como suporte à garantia dos direitos humanos.

André Fernandes consolida sua trajetória como um dos grandes nomes da fotografia brasileira contemporânea, utilizando a arte para dar visibilidade à riqueza cultural e espiritual do Candomblé. Seu trabalho não apenas preserva a memória afrodescendente, mas também provoca reflexões sobre identidade, ancestralidade e resistência.

“Acredito que a arte tem o poder de unir, transformar e iluminar. Fotografar os Orixás é minha maneira de contribuir para a valorização de nossa cultura e para um mundo mais inclusivo e respeitoso”, finaliza o artista.

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