Edição ocorre fora de época, mas traz nomes do primeiro escalão da literatura brasileira e mundial, como os brasileiros Jefferson Tenório e Carla Madeira, e o francês Edouard Louis
Aline Viana
A 22ª Festa Literária de Paraty (Flip) começa nesta quarta-feira (9) e segue até domingo (13). Nesta edição, o homenageado é um ilustre desconhecido: o autor carioca João do Rio, famoso por suas crônicas e por ser uma espécie de pioneiro do jornalismo literário nacional. A festa também terá nomes badalados como o francês Édouard Louis e o youtuber Felipe Neto.
Uma das coisas interessantes da Flip é jogar luz sobre uma figura importante no cenário da literatura brasileira. A maioria dos homenageados são unanimidades de um óbvio quase ululante para o bem ou para o mal (caso da estadunidense Elizabeth Bishop, cancelada pelo apoio à ditadura militar).
João do Rio (1881-1921) não causa polêmicas e nem controvérsias, escreveu em um gênero que é um dos preferidos do leitor brasileiro, mas até poucos anos não figurava nos livros didáticos de literatura – uma conhecida porta de entrada dos autores nacionais para o nosso povo.
Seu nome verdadeiro é João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. O pseudônimo que o deixou famoso é um entre tantos que usou ao longo de sua carreira nos jornais cariocas e teve como inspiração um autor francês, Jean de Paris, ou na carteira de identidade Napoléon-Adrian Marx (1837-1906), que escrevia no Le Figaro.
Outro ponto que pesava contra o legado do autor é o fato de seus principais gêneros, a crônica e a reportagem, estarem profundamente calcados no cotidiano – há uma percepção de que essa característica pode “envelhecer” um texto, mas a produção de João do Rio passa longe desse risco.
Numa época em que os escritores e jornalistas não iam às ruas, João do Rio subia os morros para conhecer para investigar o que acontecia nos templos de protestantes e de religiões afrobrasileiras. Embora o Brasil fosse um país cuja religião oficial fosse o catolicismo, a elite buscava respostas e cura junto aos curandeiros, pais e mães de santos – um exemplo bem conhecido é o caso do presidente Venceslau Brás (1914-1918), que foi curado de um ferimento na perna pela Tia Ciata (1854-1924), mãe de santo e uma das pioneiras do samba.
Ele escreveu sobre a reforma urbanística do Rio de Janeiro que expulsou os pobres para os morros e deu à capital fluminense o ar de Paris dos trópicos que ela exibe até hoje.

Se vivesse hoje, João do Rio seria uma espécie de avô literário do Chico Felitti (aliás, uma sonora ausência na programação oficial do evento) – o jornalista paulista gay e boa praça, estrela das redes sociais, que publica casos sobre a vida secreta e obscura dos ricos e famosos.
Sendo um homem de ascendência negra, gay e obeso, João do Rio foi vetado para ser diplomata pelo então ministro das Relações Exteriores, o Barão de Rio de Branco (1845-1912). Só lhe restou, então, viver de seus textos – o que até hoje é um feito e tanto. Sua escrita o levou a ser membro da Academia Brasileira de Letras, feito que seu contemporâneo e inimigo declarado, Lima Barreto (1881-1922) jamais alcançou.
Quando morreu, aos 39 anos, 100 mil pessoas, de um Rio de Janeiro com 400 mil habitantes, compareceram ao seu velório.
Recentemente, a obra de João do Rio entrou em domínio público. Assim, várias casas editoras já estavam empenhadas no resgate de seus livros e textos antes mesmo desta Flip – há opções para todos os gostos e bolsos.
O que você não pode perder nessa 22ª Flip
Esteja você em Paraty (RJ) ou em sua cidade acompanhando as palestras online pelo canal da Flip no Youtube, essas são as mesas que valem muito a pena acompanhar.
Porém, em se tratando de conversas sobre literatura, mesas menos hypadas podem surpreender e outras, que tinham tudo para ser as melhores, podem flopar. Sendo assim, permita-se conhecer novos autores e não sofra se perder algo – o conteúdo das palestras permanece no Youtube do evento e você poderá recuperar depois.
Quarta-feira (9)
Mesa de abertura – 19h30
Luís Antonio Simas apresenta uma aula breve sobre João do Rio, a novidade da crônica, o fascínio com a cidade do Rio que se modernizava e também a atenção com a tradição que a construiu. Atualização do legado de João do Rio como chave para entender a contradição em que fomos criados.
Quinta-feira (10)
Mesa 4 – a vida secreta das emoções – 14h
Ilana Gaspari e Marcela Dantés se apresentam com a mediação de Natalia Timerman
Ilaria Gaspari é uma filósofa que olha para a história da filosofia antiga para entender o mundo e quem somos nos dias de hoje. Marcela Dantés é uma escritora que espia a psicanálise moderna para contar histórias que poderiam estar em qualquer tempo. Tudo o que vai por dentro para construir narrativas impressionantes.
Mesa 5 – inventar na América Latina – 14h
Noemi Jaffe media a mesa que terá como estrelas Joca Reiners Terron e Juan Cárdenas
Dois dos maiores nomes da literatura latino-americana conversam sobre literatura e seus romances mais recentes, que refletem sobre como a emergência climática alcança cada canto do mundo, mesmo as pequenas cidades. Certa herança do realismo mágico, imaginação febril e absoluta destreza literária guiam suas reflexões fundamentais sobre o mundo de hoje.
Sexta-feira (11)
Mesa 8 – a paz e o gesto – 10h
A escritora romana Lisa Guinzburg e a lisboeta Ana Margarida de Carvalho debatem sob a mediação de Adriana Ferreira Silva
A vida da mulher contada por ela mesma, sem armadilhas que a levem a discutir, mais uma vez, a maternidade ou as relações amorosas. Mulheres como criadoras de uma autonomia única e viva, mas, principalmente, de uma literatura universal.
Mesa 9 – como enfrentar o ódio – 12h

A jornalista Patrícia Campos Mello e o youtuber Felipe Neto conversam sobre o fim do Brasil cordial com mediação de Fabiana Moraes
Entender o mecanismo do ódio nas redes sociais e na sociedade é o ponto central da discussão política: como as redes sociais são usadas na construção da polarização e como estamos, no Brasil e no mundo, reféns de um sistema que se alimenta desse sentimento.
Mesa 13 – Zé Kleber: Rádio Novelo Apresenta ao vivo – 21h
A Rádio Novelo é uma iniciativa que conta com vários podcasts, que contam histórias inusitadas e curiosas. O time capitaneado por Branca Vianna e Flora Thomson DeVeaux se propõe a realizar uma crônica ao vivo e em cores
O Rádio Novelo Apresenta se inspirou em João do Rio para criar um programa inédito com histórias de todo tipo sobre as ruas: histórias escondidas nas sarjetas, debaixo das pedras e por trás das placas. Tem um crime do qual Paulo Barreto poderia ser acusado de apologia, assim como a saga de um anti-herói das ruas de todo o mundo (que talvez nem devesse estar nas ruas).
Sábado (12)
Mesa 15 – a eterna guerra dos sexos – 12h
No palco principal da Flip um trio de mulheres, a mexicana Jazmina Barrera e a carioca Ligia Gonçalves Diniz serão mediadas por Branca Vianna
Encontro de duas ensaístas que mergulham na história da literatura para reconstruir velhos lugares comuns sobre os papéis dos homens e das mulheres. Reinventar nosso modo de entender o mundo a partir do gênero, aprendendo a ser generosos na troca do olhar.
Mesa 17 – a memória dos homens – 17h
O senegalês Mohamed Mbougar Sarr é autor de “A mais recôndida memória dos homens” (Fósforo, 2023), obra que conquistou o famoso prêmio Goncourt – um dos mais importantes da literatura francesa. Do outro lado, temos Jefferson Tenório, autor de “O avesso da Pele” (Cia das Letras 2020) e um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. A conversa tem a condução de Rita Palmeira.
Um resgata a ancestralidade pela riqueza do legado. O outro faz uma espécie de acerto de contas. Em ambos os autores, a masculinidade, a injustiça e a eterna tentativa de contar a história pela invenção de uma memória que faça jus à história que queremos. Um elogio ao poder da palavra, à criação e à literatura.
Mesa 18 – a anatomia do futuro – 19h30

Paulo Roberto Pires conduz a conversa com a principal estrela do evento, o francês Édouard Louis, autor que alcançou o status de celebridade com seu primeiro romance “O fim de Eddy” (Tusquets, 2018) e desde então segue no palco principal da literatura
Criado num mundo de desigualdade, preconceito e conformismo, o autor francês reinventou sua vida com a literatura. Louis escreve sobre si para falar de todos nós, na convicção de que o desejo de mudança é o primeiro passo de uma vida mais justa.
Domingo (13)
Mesa 19 – invenção e linguagem: o romance segue – 10h
As brasileiríssimas e best-sellers Carla Madeira, Silvana Tavano e Mariana Salomão Carrara contam como estão renovando a relação entre escritores e o público no Brasil
Quando tudo parece conspirar para que a literatura seja posta de lado, surgem livros que renovam a vocação e o talento para contar histórias arrebatadoras, que relembram que personagens e enredos nos moldam e ajudam a viver.