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Libelo feminista, “Pobres Criaturas” examina ruídos da civilização

Filme de Yorgos Lanthimos, vencedor do Leão de Ouro e indicado a 11 Oscars, navega entre fantasia e ficção científica para erigir culto à vida original e imaginativo

Por Reinaldo Glioche

Pobres Criaturas

Há um momento em que Bella Baxter (Emma Stone), em uma de suas aventuras pela Europa da era vitoriana, se depara com um homem que se classifica como cínico. Ele a apresenta um lado aterrorizante da existência e a aconselha a ignorar a filosofia e os sistemas – do capitalismo ao socialismo – erigidos para regular a sociedade e o tal do bem-estar social. O encontro é mais um entre tantos de nossa heroína e pode surgir como desimportante para parte da audiência, mas é vital no comentário que o cineasta Yorgos Lanthimos quer estabelecer com sua obra.

“Pobres Criaturas”, cujo roteiro é assinado pelo mesmo Tony McNamara que escreveu para Lanthimos “A Favorita”, é adaptado da obra homônima de 1992 escrita por Alasdair Gray. A narrativa segue Bella, uma jovem vitoriana que, ao ser ressuscitada por um cientista após o suicídio dela, foge com um advogado debochado para embarcar em uma odisseia surrealista de autodescoberta e libertação.

Willem Dafoe vive com graciosidade e compostura Godwin Baxter, o cientista que transplanta o cérebro de um bebê para o corpo ressuscitado de sua mãe. Ele é o primeiro homem a tentar controlar Bella e é a partir dessa relação seminal que o longa vai costurando um comentário forte e bem fundamentado, sem jamais esbarrar no panfletarismo, sobre a maneira tentacular de controle sobre a mente e o corpo da mulher pelo patriarcado.

Depois dele seguem o noivo apaixonado e servil (Ramy Youssef), o advogado mulherengo (Mark Ruffalo) e até mesmo o marido da mulher que ocupou aquele corpo antes (Christopher Abbott). Embora seja uma das forças narrativas do longa, o libelo feminista não é o objetivo-mor, mas sim um exame delongado – a partir da perspectiva inocente de Bella – das falências sociais, das amarras ilusórias da civilização. É a polite society no divã. No interim, Lanthimos, McNamara e Stone ofertam um olhar doce e genuíno sobre as agruras do viver, sobre o crescente e inescapável mal-estar existencial, mas embora recebam a melancolia, nunca deixam ela nortear essa odisseia.

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Fotos: Divulgação

“Pobres Criaturas” é um filme lindo de se assistir. Da fotografia exuberante em cores ao desenho de produção arrojado e criativo, há sempre muito disputando nossa atenção na tela. Algo que favorece a emissão constante de sinais, uma suscetibilidade tanto de Bella descobrindo tudo o que vê e toca, como da audiência a partir dessa solução visual específica.

O esmero criativo da realização é tal, que há fluidez constante de gêneros. Do humor ao sci-fi, da sátira à fantasia e finalmente remetendo à sátira, um estilo oratório que Lanthimos domina desde os tempos de cinema grego. Em Hollywood, porém, essa talvez seja sua produção mais solar, não tanto pelas cores, figurinos vultosos e personagens esquisitões, mas pela visão de mundo sinérgica.

O sexo aqui surge como um canal de descoberta, de si e do mundo, e uma ponte para o pensamento mais livre e autônomo. Deriva daí a importância de mostrar essas cenas que, ressalte-se, surgem deserotizadas, em mais uma demonstração da assertividade narrativa de uma obra que jamais trafega pelos pavimentos mais óbvios da dramaturgia.

E não há como dimensionar “Pobres Criaturas” sem render elogios a Emma Stone, sua alma e coração. A atriz captura a essência de uma personagem que precisa convergir vícios e expectativas à medida que vai perdendo uma inocência que nunca foi dela. Tudo isso sem escorregar para a caricatura, mas sem perder de vista a fisicalidade da comédia e a emotividade das descobertas. Uma atuação tão nuançada, tão irrigada que faltam adjetivos para cortejá-la. É o trabalho de uma vida e Stone só tem 35 anos! O segundo Oscar – o primeiro foi por “La La Land” – pode até não vir, mas ela crava Bella Baxter no âmago da cinefilia e ajuda a fazer do longa um acontecimento cultural desses que o cinema afortunadamente nos oferta de tempos em tempos.

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