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Inflexão sobre tecnologia eleva experiência de “O Mundo Depois de Nós”

Por Reinaldo Glioche

Julia Roberts e Mahershala Ali em cena de O Mundo Depois de Nós

Sam Esmail acredita que as teorias da conspiração abraçadas pela sociedade dizem mais sobre a sociedade do que sobre as teorias em si. Sua fama deriva justamente da capacidade de potencializar essa análise a partir do atravessamento da tecnologia. Foi assim na série cult “Mr. Robot” (2015-2019) e na antologia “Homecoming” (2018-2020), que o reuniu com Julia Roberts, a maior estrela de sua primeira empreitada na Netflix, “O Mundo Depois de Nós”.

Adaptado do livro homônimo de Rumaan Alam, o longa irriga teorias da conspiração em um cenário de apocalipse digital. As férias do casal Clay (Ethan Hawke) e Amanda (Roberts) com seus filhos Rosie (Farrah Mackenzie) e Archie (Charlie Evans) viram de cabeça para baixo quando uma espiral de incômodos começam a escalar. Do wifi que não conecta ao celular sem sinal, passando por um apagão na cidade que faz com que o proprietário da casa de luxo afastada da vida urbana que alugaram bata à porta.

G.H (o sempre elegante Mahershala Ali) chega acompanhado de sua filha Ruth (Myha´la Herrold) e ajuda a desestabilizar de vez a já esgarçada paz de espírito de Amanda, uma figura arredia a contatos sociais – e isso é importante porque à medida que o mundo como o conhecemos vai ficando distante, Amanda parece viver uma transformação. Não sem tensionamentos.

Esmail é um diretor grandiloquente e, no caso de “O Mundo Depois de Nós”, dá match. A estrutura narrativa é minimalista, quase tudo o que acontece se dá no campo da sugestão, das expectativas e das especulações, mas o diretor filma com senso de urgência, de subversão. Sua câmera é agressiva. Seus enquadramentos, íngremes e transitórios. A inquietude interna que se avoluma ganha expressão na maneira como o cineasta articula a ação entre os personagens, mas também a ação que faz com que eles se movimentem.

O desfecho é menos aberto do que muitos andam dizendo por aí. Não se tem uma solução fechada, mastigada, no escopo das convenções hollywoodianas, mas uma inflexão potente sobre nostalgia e sobre os riscos de confiar nossas vidas cada vez mais às soluções digitais – tudo brilhantemente encampado na adoração de uma personagem pelo seriado “Friends”. Mais: há toda uma questão geopolítica e militar sobre a evolução da guerra e de como ela se dará nesse contexto de inteligência artificial e desinformação. Nesse eixo mais intuitivo, “O Mundo Depois de Nós” rumina junto com quem estiver disposto a especular sobre as intercorrências apresentadas.

O Mundo Depois de Nós
Fotos: Divulgação

A ideia do apocalipse, seja ele digital, como aqui ou com mais estardalhaço em “Missão: Impossível – Acerto de Contas Parte 1”, seja ele mais convencional, como em “Batem à Porta”, de M. Night Shyamalan, que, diga-se de passagem, é uma referência vívida na gramática cinematográfica aplicada por Esmail, foi algo latente no cinema norte-americano em 2023 e que, em “O Mundo Depois de Nós”, assevera mais dúvidas do que certezas. Um atestado, enfim, de sua potência cinemática.

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