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Violência como um câncer é matéria-prima de “Tempos de Barbárie”

“Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia de Vingança” chega aos cinemas nesta quinta (17) e coloca Claudia Abreu como uma vítima da violência urbana no Rio de Janeiro que perde completamente os parâmetros de sua realidade

Por Reinaldo Glioche

Tempos de Barbárie

Apenas em 2023 – e ainda estamos em agosto – foram sete crianças mortas por bala perdida na cidade do Rio de Janeiro. Esse dado alarmante, que infelizmente integra a paisagem urbana carioca e brasileira, é elementar no novo filme de Marcos Bernstein (“Meu Pé de Laranja Lima”), um thriller urbano dilacerante que também enseja algum comentário sociológico, sempre com o prisma da violência como um câncer social.

Em “Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia de Vingança”, Cláudia Abreu, uma atriz ainda mais obrigatória no cinema, vive a advogada Carla, cuja filha é baleada em uma tentativa de assalto e fica internada em coma sem grandes perspectivas de voltar à normalidade da vida. Inconformada com a morosidade policial e atordoada pela dor e por um sentimento de culpa complexo e nauseante, Carla se lança sem muita convicção em uma jornada de vingança.

Posto assim, o longa parece uma versão brasileira de produções que salpicam em Hollywood desde sempre. A saber, a série “Desejo de Matar”, protagonizada por Charles Bronson e recentemente refilmada com Bruce Willis, e a percepção não está errada. O longa guarda muito dessa referência, mas o objetivo aqui não é ser apenas um thriller de ação.

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Bernstein entende ser necessário tecer comentários, ainda que nada taxativo demais, a respeito do estado das coisas. Embora tateie essa condição de forma hesitante, ele consubstancia seu filme de nervos, dor e boas perspectivas. Principalmente em virtude da autoridade dos atores em cena. Alexandre Borges faz um advogado com conexões suspeitas que acredita que uma arma é capaz de prover segurança e, se falhar, a justiça dos homens. Já Júlia Lemmertz interpreta a responsável por um grupo de apoio que, também ela, foi vítima de violência.

São personagens que, na melhor estratégia anjinho e diabinho, adensam a trajetória dramática da Carla de Cláudia Abreu, uma mulher entregue aos vaticínios da dor, da vulnerabilidade e da incompreensão.

Tempos de Barbárie
Fotos: Divulgação

A polarização política vigente no Brasil, claro, é um tópico informal no longa, mas sempre de maneira ajustada à perspectiva da verdade daqueles personagens. Por essa ambição narrativa elogiável, “Tempos de Barbárie” merece atenção, ainda que nem sempre alcance os resultados intencionados.

A montagem do filme, cooptada por Tainá Diniz, Danilo Lemos e Marcelo Moraes, merece um elogio à parte. Ela fragmenta a tensão de forma a colocar a audiência no estado de desorientação da personagem central. Principalmente no início do filme ostenta um efeito dramático salutar.

Ainda que não seja um grande filme, no compasso dos prêmios e da coqueluche crítica, “Tempos de Barbárie” aproxima o cinema brasileiro daquele objetivo inassumido de produzir entretenimento pensante no esteio que os hermanos tão bem fazem.

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