Tom Leão
O Novo filme de Sam Mendes (ganhador de Oscar de filme e direção por “Beleza Americana”, em 1999), “Império da Luz” (‘Empire of Light’), que está sendo lançado no Brasil no final de fevereiro, se passa no começo dos 80s (na virada de 1980 para 1981, mais precisamente), quando a Inglaterra vivia um clima tenso, com desemprego, inflação e brigas motivadas por política e racismo (soa familiar, não?) Foi no meio disso tudo, que floresceu o movimento Two-Tone (ou 2Tone), que visava integrar as raças através da música. No caso, era uma nova versão do bom e velho ska/reggae jamaicano.
Deste movimento (chamado também de ‘segunda onda do ska’, na Inglaterra — a primeira, foi nos anos 1960, e o ritmo, então, era mais lento –, saíram bandas Como Madness, The Specials (cujos discos de estreia saíram no final de 1979) e The Beat (que, nos EUA, virou English Beat, porque já existia um homônimo) e outras, que foram um pouco menos famosas. Como The Selecter, The Body Snatchers e Bad Manners (esta, ainda na ativa, e que se apresentou em São Paulo, recentemente). Este novo ska, que misturava o clima do punk/new wave com as batidas do som jamaicano, era vibrante e muito dançante.

Em “O Império da Luz”, um dos personagens principais, é um jovem negro, que é perseguido pelos skinheads (o filme se passa em Kent, uma cidade litorânea inglesa) não apenas por ser negro, como também por ser um rude boy: se veste no estilo two-tone (chapéu estilo Fedora, calças justas, colete e buttons de bandas) e encontra refúgio no vibrante ska, em festas do gênero, onde ia para dançar e confraternizar com outros jovens como ele, pretos e brancos, unidos pela música.
Eram os dois tons em ação.
Além de ser perfeito para o que pretendia, o nome 2Tone (que foi criado por Jerry Dammers, um dos integrantes do Specials), também batizou assim uma gravadora (que funcionou de 1979 a 1985). Aliás, o primeiro disco do Specials, bom de ponta a ponta, foi produzido por Elvis Costello. Ainda que, na época, a força do two-tone tenha ficado mais nos limites da Inglaterra (embora os discos das principais bandas tenham sido lançados no Brasil, nenhuma das bandas mais importantes passou por aqui), o gênero teve uma nova onda, nos anos 1990, nos Estados Unidos, e as influências do ska reverberaram em bandas como Might Mighty Bosstones, No Doubt, Sublime, Reel Big Fish, Goldfinger, Buck-o-Nine, Less Than Jake, e até mesmo na banda punk Rancid, que tinha uma pegada reggae a la Clash.
De modo geral, o two-tone britânico jamais teve um grande revival. Quem sabe, pode acontecer agora, já que, seu público é bem variado, indo de punks e skatistas a quem curte música negra, como acontece com vários outros gêneros? Algumas bandas (como Madness, Specials e The Beat) ainda excursionavam pelo Reino Unido e Europa. Contudo, dois dos grandes vocalistas do gênero, Ranking Roger, do The Beat; e Terry Hall, do Specials, faleceram recentemente.
No Brasil, um dos raros expoentes do ska é o Paralamas, que adaptava o ritmo à sua moda, mais misturado e acelerado ainda. O então Paralamas do Sucesso, teve em seu segundo disco, ‘O passo do Lui’ (1984), um legítimo representante do ska two-tone brazuca (inclusive, na parte gráfica, toda bicolor) e nas suas músicas vibrantes e dançantes, numa pegada que remetia aos sons de Madness e Bad Manners, sobretudo. É urgente que o espirito two-tone reviva, num mundo em que o racismo aparenta estar voltando com força total. A música sempre é um bom fio condutor para mudanças.