Reinaldo Glioche
A Warner Bros. Discovery (WBD) anunciou oficialmente um movimento há muito especulado: a empresa será dividida em duas entidades independentes, com ações negociadas separadamente. Essa decisão estratégica representa uma das reestruturações mais significativas da história recente de Hollywood, redesenhando o futuro de um dos maiores conglomerados de mídia do mundo.
Uma das novas empresas será chamada “WBD Streaming & Studios”, reunindo a Warner Bros. Pictures, HBO, Max (que em breve retornará à marca HBO Max globalmente) e a DC Studios. A outra será “WBD Global Networks”, que abrigará a CNN, TNT, TBS, Discovery Channel e outros canais tradicionais que têm enfrentado dificuldades diante do declínio geral da audiência da TV linear.
De acordo com o CEO David Zaslav, que continuará no comando da divisão de streaming e estúdios, a separação permitirá que cada negócio tenha “foco mais claro e flexibilidade estratégica” para lidar com o cenário midiático em constante transformação. Com essa divisão, cada empresa poderá buscar oportunidades específicas no mercado — incluindo fusões e aquisições — de forma mais eficaz do que se permanecessem integradas.
A separação deve ser concluída até meados de 2026, e o atual CFO Gunnar Wiedenfels assumirá o comando da divisão Global Networks. Wiedenfels, que já ocupou cargos financeiros na Warner Bros. Discovery e anteriormente na alemã ProSiebenSat, sinaliza uma mudança no estilo de liderança. Sua trajetória focada em finanças indica que medidas de disciplina fiscal — e possivelmente uma futura venda ou fusão — podem estar no horizonte para o braço de canais tradicionais da empresa.
Um ponto crucial é que a maior parte da expressiva dívida da WBD — estimada entre US$ 34 bilhões e US$ 37 bilhões — será transferida para a divisão de canais. Embora esse segmento não apresente o mesmo ritmo de crescimento do streaming, ele ainda gera fluxo de caixa significativo. Além disso, a nova empresa de canais manterá até 20% de participação na divisão de streaming e estúdios, garantindo exposição contínua ao potencial de valorização desse setor.
A decisão de dividir a Warner Bros. Discovery reacendeu memórias da criação da empresa, em 2022, quando a Discovery se fundiu com a WarnerMedia em um acordo de US$ 43 bilhões. Essa fusão foi liderada por Zaslav, cuja gestão desde então tem sido marcada por decisões ousadas e controversas, como o cancelamento de filmes prontos, como “Batgirl”, para obter benefícios fiscais, a retirada de produções do streaming para economizar em royalties e quase a desmontagem do Turner Classic Movies, revertida após pressão de cineastas renomados.
A gestão de Zaslav tem enfrentado críticas públicas por algumas de suas escolhas criativas, incluindo o caso do filme “Coyote vs. Acme”, concluído, mas quase engavetado antes de uma mobilização pública forçar sua venda.
Em meio a toda essa movimentação corporativa, também circulam especulações sobre os planos de sucessão na WBD. Alguns executivos enxergam essa divisão como o possível início da saída de Zaslav — ou pelo menos uma estratégia gradual de afastamento. Nomes como Casey Bloys, respeitado chefe de conteúdo da HBO e Max, e Channing Dungey, CEO do Warner Bros. Television Group, surgem como potenciais sucessores caso Zaslav decida se retirar.
Essa cisão histórica enseja uma reestruturação no mercado de mídia, com grandes conglomerados se afastando do negócio de TV linear em busca de uma estabilização de lucros.