Reinaldo Glioche
A Warner Bros. atravessa um dos melhores anos de sua história recente nas bilheterias. Com sucessos originais como “Pecadores” e “A Hora do Mal” conquistando crítica e público, e blockbusters como “Invocação do Mal 4: O Último Ritual” – que se tornou o maior filme de terror da história do Brasil com R$ 76 milhões arrecadados e 3,6 milhões de espectadores – o estúdio demonstra sua capacidade de produzir conteúdo relevante. No entanto, essa performance artística e comercial não se reflete em estabilidade empresarial. A Warner Bros. Discovery (WBD) encontra-se no epicentro de uma disputa corporativa capaz de alterar definitivamente as placas tectônicas de Hollywood.
David Ellison, CEO da Paramount Skydance e filho do bilionário Larry Ellison (cofundador da Oracle), emerge como o principal pretendente à Warner Bros. Discovery. Apoiado pelos “fundos profundos” de seu pai – atualmente o homem mais rico do mundo com patrimônio de US$ 370 bilhões – Ellison planeja uma oferta totalmente em dinheiro que poderia resultar em uma fusão avaliada em mais de US$ 50 bilhões.
A proposta surge apenas semanas após a Skydance concluir a aquisição da Paramount Global por US$ 8,4 bilhões, sinalizando as grandes ambições dos Ellison para construir um império de mídia. Contudo, quase duas semanas após as primeiras notícias, a abordagem formal ainda não aconteceu. Fontes próximas à Skydance revelam preocupações estratégicas sobre como abordar David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, conhecido por sua habilidade negocial e desejo de provocar uma guerra de lances.
A estratégia em discussão inclui contatar John Malone, magnata da mídia e mentor de longa data de Zaslav, para apresentar a proposta. Malone, acionista majoritário da WBD através da Liberty Media e aliado político dos Ellison – ambos apoiadores de Donald Trump – poderia facilitar as negociações. A oferta inicial, entre US$ 22 e 24 por ação, foi considerada baixa por Zaslav, que acredita poder atrair outros compradores.

Netflix entra na disputa
Paralelamente, a Netflix emerge como potencial compradora dos ativos da Warner Bros. Discovery. Segundo relatórios da indústria, a gigante do streaming está “considerando uma oferta” pelos ativos controlados por Zaslav, adicionando uma nova dimensão à disputa corporativa.
A entrada da Netflix na corrida levanta questões fundamentais sobre o futuro do cinema. Como plataforma de streaming, sua aquisição da Warner Bros. poderia significar mudanças drásticas na distribuição cinematográfica, potencialmente afetando o lançamento de filmes em cinemas. A reputação da Netflix por produzir conteúdo em volume – frequentemente criticado pela proporção “lixo-ouro” de aproximadamente 100:1 – e sua característica “aparência Netflix” preocupam cinéfilos e profissionais da indústria.
A NBCUniversal também demonstrou interesse, analisando “os números da WBD” durante o fim de semana, embora fontes da Comcast considerem tal aquisição improvável devido a questões regulatórias.
Zaslav orquestra a venda
David Zaslav, veterano da indústria e arquiteto da fusão de US$ 43 bilhões entre Discovery e WarnerMedia em 2022, está aproveitando sua posição vantajosa. Contratando a Goldman Sachs, ele planeja dividir a empresa ao meio: uma unidade focada em streaming e estúdio, outra concentrada nas propriedades de cabo. Essa estratégia visa maximizar o valor, vendendo as unidades separadamente ou gerenciando operações menores mais eficientemente.
A reorganização já atraiu interesse da Netflix e Amazon pela divisão de streaming e estúdios, enquanto Zaslav recebeu sinais de múltiplos interessados em diferentes partes da empresa.