Redação Culturize-se
Após mais de uma década moldando o universo moralmente ambíguo de “Breaking Bad” e “Better Call Saul”, o showrunner Vince Gilligan decidiu seguir por outro caminho. Seu novo projeto, “Pluribus”, que estreia nesta sexta-feira (7) na Apple TV, marca uma ruptura criativa com as histórias de anti-heróis e crimes do passado. “’Pluribus’ não é ‘Breaking Bad’ nem ‘Better Call Saul’”, enfatiza Gilligan em entrevista à NME. “Mesmo que tenha sido filmada em Albuquerque e traga Rhea Seehorn como protagonista, é uma obra completamente diferente.”
A série, que já tem segunda temporada confirmada, combina ficção científica e sátira social em um enredo que parece dialogar diretamente com os tempos atuais. Com nove episódios, “Pluribus” acompanha Carol Sturka (Seehorn), uma escritora em turnê literária quando o mundo sofre uma reviravolta: um vírus transforma a humanidade em drones sorridentes e satisfeitos, enquanto os poucos imunes observam, confusos, o fim da infelicidade — e da individualidade. “Sempre me interessei por um mundo onde todos se amam e vivem em harmonia. Mas seria mesmo tão bom quanto parece?”, provoca Gilligan.
Em um tom que lembra clássicos da ficção especulativa, Gilligan usa a trama para refletir sobre a obsessão moderna pela felicidade e o medo do conflito. “Talvez perder a individualidade não seja algo tão positivo”, diz o criador. A primeira temporada estreará com dois episódios — “We Is Us” e “Pirate Lady” — e novos capítulos serão lançados semanalmente até 26 de dezembro. O elenco inclui ainda Karolina Wydra (“Sneaky Pete”), Carlos-Manuel Vesga (“O Sequestro do Vôo 601”), Miriam Shor (“Ficção Americana”) e Samba Schutte (“Nossa Bandeira é a Morte”).
O primeiro episódio mostra o planeta em colapso após a descoberta de um astrônomo, enquanto Carol tenta compreender o novo mundo. No segundo, um encontro improvável na Europa aprofunda o caos e apresenta o “novo normal” da sociedade. A ironia central de “Pluribus” é justamente a de uma heroína relutante: “a pessoa mais miserável do planeta precisa salvar o mundo da felicidade”.





Aos 58 anos, Gilligan admite que o desafio de se reinventar é tão grande quanto libertador. Após o fim de “Better Call Saul” em 2022, ele resistiu à pressão da Sony para expandir o universo de “Breaking Bad”. “Talvez fosse hora de seguir em frente. Queria ver se ainda tinha outras histórias dentro de mim e isso é assustador.” A inquietação criativa do autor se traduz em uma série que, sob a aparência de humor e ficção científica, discute as ansiedades contemporâneas: autoritarismo, pandemias e inteligência artificial.
“Vivemos em um país dividido, mas acredito que ninguém quer isso, de nenhum dos lados”, reflete Gilligan. “Talvez ‘Pluribus‘ seja o máximo que posso fazer para tentar melhorar o mundo.” A frase sintetiza o espírito da produção. Uma fábula sobre como a busca obsessiva pela felicidade pode se transformar na mais doce das prisões.