Redação Culturize-se
Londres revisita o mito de Gianni Versace em uma exposição monumental instalada nos túneis industriais do The Arches, ao lado da London Bridge. A mostra, em cartaz até março de 2026, reúne mais de 450 peças originais — croquis, vídeos, registros de desfiles e, claro, roupas, o coração pulsante de um criador que transformou a moda em teatro e desejo.
Trata-se de uma celebração exuberante em tempos contidos, um tributo aos anos 1980 e 1990, quando o excesso era sinônimo de estética e identidade. Os manequins vestem couro, correntes, estampas digitais e as icônicas medusas douradas, símbolos de um luxo barroco e inconfundível. É uma homenagem à vitalidade criativa de Versace, que fez da sensualidade e da ousadia a linguagem de uma nova era.
A mostra busca reintroduzir às novas gerações o impacto de Gianni Versace, assassinado em 1997, em frente à sua mansão em Miami. Mais do que uma retrospectiva, é uma tentativa de reviver sua energia, generosidade e carisma, qualidades que sustentavam sua genialidade. Versace foi um dos primeiros a fundir a moda com o universo pop e as celebridades, transformando passarelas em espetáculos multimídia e modelos em estrelas globais.
Nos anos 1980, enquanto a Itália consolidava seu “made in Italy” como marca de excelência, Gianni despontava como um dos estilistas mais experimentais. Explorava novas tecnologias têxteis e misturava influências do barroco, da antiguidade clássica e do imaginário cristão, reinterpretando tradições italianas sob uma ótica contemporânea. Era também um homem do sul do país, distante dos centros tradicionais de luxo e fez dessa origem um símbolo de orgulho e reinvenção.

O universo Versace sempre foi uma história de família. Santo Versace, o irmão mais velho, cuidava da administração e das finanças, permitindo que Gianni e Donatella se concentrassem na criação. Após o diagnóstico de câncer em 1993 e o assassinato do irmão quatro anos depois, Donatella assumiu o comando da grife, ainda insegura. Com o tempo, construiu sua própria identidade e transformou-se, ela também, em ícone. Santo, por sua vez, foi o pilar discreto que garantiu a sobrevivência da marca até sua venda, em 2018, ao conglomerado Capri Holdings, por 1,8 bilhão de euros.
A moda como linguagem cultural
Versace compreendeu cedo as mudanças econômicas e sociais do final dos anos 1980. Enquanto a alfaiataria pesada da estética “City” perdia espaço, ele criava roupas leves, fluidas e brilhantes, para uma nova elite global; executivos das finanças, magnatas do petróleo e consumidoras do Oriente Médio. Suas peças comunicavam poder, desejo e pertencimento, transformando o ato de vestir em afirmação de sucesso.
Por nove temporadas, Gianni reinou absoluto. O público da exposição assiste a trechos de seus desfiles projetados em telões — um espetáculo de cor, energia e glamour que consolidou as supermodels como fenômeno cultural. Entre os destaques, o vestido preto usado por Lady Di em Miami e uma parede de camisas da coleção pessoal de Elton John, dispostas como relíquias pop.

Sob a direção criativa do novo estilista Dario Vitale, a marca revisita sua herança com uma proposta mais jovem e comercial. Sua coleção de estreia, para o verão 2026, dividiu opiniões: sensual, divertida e imediata, trouxe de volta uma sensação de “realness” há tempos ausente. Vitale mistura irreverência e respeito, reinterpretando as medusas e os excessos de Gianni para uma geração que vive entre a nostalgia analógica e a estética digital.
A mostra londrina, ao mesmo tempo nostálgica e vibrante, cumpre uma dupla missão: reafirmar a importância de Gianni Versace para o design italiano e mostrar que o luxo, quando movido pela paixão, continua sendo uma força cultural. Em tempos minimalistas, seu maximalismo desponta como um choque bem-vindo.