Redação Culturize-se
O U2 voltou. Quase uma década após seu último lançamento de músicas inéditas, a banda irlandesa apresentou na quarta-feira (18), o EP “Days of Ash”, uma coleção de seis faixas — cinco músicas e um poema — que responde diretamente ao momento político global. Guerra na Ucrânia, políticas de imigração nos Estados Unidos e conflito no Oriente Médio são os temas centrais do trabalho, que conta com participações de Ed Sheeran e do músico e soldado ucraniano Taras Topolia.
O anúncio encerra um longo silêncio discográfico. O último álbum de inéditas da banda, “Songs of Experience”, foi lançado em 2017, às vésperas do primeiro mandato de Donald Trump. Agora, com Trump de volta à Casa Branca e o mundo em ebulição, Bono e companhia retomam a voz e o tom é de urgência. “As faixas deste EP não podiam esperar; essas canções estavam impacientes para ganhar o mundo. São músicas de desafio e desânimo”, declarou o vocalista em comunicado oficial.
No site da banda, o projeto é descrito como “uma resposta imediata aos eventos atuais, inspirado pelas muitas pessoas extraordinárias e corajosas que lutam nas linhas de frente da liberdade”. O EP foi lançado de forma independente, reforçando o caráter urgente e desburocratizado da iniciativa.

A faixa de abertura, “American Obituary”, é dedicada a Renee Good, mãe americana morta a tiros por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) em 7 de janeiro, enquanto participava de um protesto. Na canção, Bono canta: “Renee Good born to die free” — “Renee Good nasceu para morrer livre”, em tradução literal. O tema coloca o U2 ao lado de outros artistas que têm reagido às políticas migratórias do governo Trump, como Bruce Springsteen, que em janeiro lançou “Streets of Minneapolis” em protesto à morte de Good e de outro civil, Alex Pretti, pelos agentes do ICE.
A guerra na Ucrânia é abordada em “Yours Eternally”, faixa que reúne Bono, Ed Sheeran e Topolia, músico ucraniano que trocou os palcos pelas trincheiras após a invasão russa. Para marcar o quarto aniversário do início do conflito, em 24 de fevereiro, a banda planeja lançar o videoclipe da canção. Em entrevista à Propaganda, fanzine oficial do U2, Bono foi direto ao ponto sobre o contexto geopolítico: “Pergunte a qualquer pessoa na Alemanha Oriental, na Polônia ou na Letônia se eles acham que Putin vai parar na Ucrânia.”
O EP também abriga “Song of the Future”, homenagem a uma adolescente morta durante os protestos no Irã em 2022, e “One Life at a Time”, que critica a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada. O conjunto de temas transforma “Days of Ash” em um panorama musical das principais crises humanitárias e políticas do momento.
Formado em Dublin em 1976, o U2 é composto por Bono nos vocais, The Edge na guitarra e teclados, Adam Clayton no baixo e Larry Mullen Jr. na bateria. O grupo atravessou um período de reestruturação recente: Mullen precisou se afastar para se recuperar de uma cirurgia no pescoço e ficou de fora da residência de 40 shows realizada na Sphere, em Las Vegas, encerrada em março de 2024. Em seu lugar, atuou o baterista substituto Bram van den Berg. “Não vou mentir. Não foi fácil perder a residência na Sphere por causa de lesão. Mas eu ignorei meus sintomas por anos, só indo em frente. Descobri que não sou invencível”, admitiu Mullen em entrevista recente. O baterista já retornou às sessões de gravação e relata ter adotado uma abordagem mais cuidadosa com o próprio corpo e com a técnica.
Com o EP lançado, a banda confirmou que um álbum completo está previsto para o final de 2026. Segundo Bono, mais de 25 músicas estão em desenvolvimento, com clima bastante diferente do material de “Days of Ash”. “São mais canções de celebração que lamento… mais aquele clima de alegria como ato de resistência nesses tempos ansiosos… quase como um carnaval”, descreveu o vocalista à Propaganda. “Você só consegue resistir à escuridão por certo tempo. Vamos tentar fazer a luz brilhar mais logo.”
Por ora, a escuridão tem seu espaço. E o U2 escolheu não ficar em silêncio diante dela.