Redação Culturize-se
Cinquenta anos após seu lançamento, “Tubarão” continua sendo um marco na história do cinema. Dirigido por Steven Spielberg, então com apenas 27 anos, o filme não apenas redefiniu o gênero do terror e inaugurou a era dos blockbusters modernos, como também demonstrou o poder transformador da persistência, da inovação e do instinto cinematográfico puro. Ao celebrar seu jubileu de ouro, Hollywood relembra “Tubarão” não apenas como um fenômeno cultural, mas como um momento definidor na evolução da arte de fazer filmes.
O impacto do filme foi imediato. Lançado em junho de 1975, “Tubarão” quebrou recordes de bilheteria, arrecadando mais de US$260 milhões em sua exibição original e tornando-se o filme de maior bilheteria da história até então. Redefiniu o verão como a temporada dos grandes lançamentos. Antes disso, os estúdios não costumavam alinhar estreias às férias escolares, mas o sucesso de Spielberg mudou essa lógica para sempre. A decisão da Universal de investir em uma campanha publicitária nacional sem precedentes de US$1,8 milhão, com comerciais em horário nobre na TV e lançamento simultâneo em 409 salas, transformou “Tubarão” em um fenômeno cultural.
Mas sua criação foi tudo, menos tranquila. O tubarão mecânico, apelidado de “Bruce” (em homenagem ao advogado de Spielberg), vivia quebrando. Como relataram os produtores Richard Zanuck e David Brown, a equipe tinha três tubarões diferentes para diversas funções, mas frequentemente nenhum funcionava. Os atrasos estenderam as filmagens de 55 para 159 dias, e o orçamento quase dobrou, saindo da estimativa inicial de US$4,5 milhões. Em um teste, um dos tubarões chegou a afundar no fundo da enseada de Nantucket.

Essas dificuldades técnicas acabaram se transformando em uma vantagem criativa inesperada. Forçado a esconder o tubarão por causa de sua instabilidade, Spielberg apostou na sugestão e no suspense. Dessa limitação nasceu um dos elementos mais icônicos do filme: a trilha sonora minimalista e aterrorizante de John Williams. Seu motivo de duas notas tornou-se um sinal universal de perigo iminente. O diretor também contou com imagens subaquáticas captadas pelos australianos Ron e Valerie Taylor, incluindo a memorável sequência da jaula, tão impressionante que fez o roteiro ser alterado para que o personagem Matt Hooper sobrevivesse.
A genialidade improvisadora de Spielberg foi reforçada pelo roteirista Carl Gottlieb, que reescreveu o romance original de Peter Benchley para focar no trio formado por Brody, Hooper e Quint. Gottlieb, originalmente um roteirista de comédia televisiva, também aparece em uma pequena participação no filme. É creditado por trazer realismo e humor ao roteiro – e por ajudar a criar a frase mais famosa do filme. “Você vai precisar de um barco maior”, improvisada por Roy Scheider e nascida de uma piada recorrente nos bastidores, encapsula a energia caótica e criativa da produção.
Apesar do caos nas filmagens, “Tubarão” foi um sucesso graças às dinâmicas entre os personagens, à edição inovadora de Verna Fields e à visão de Spielberg. O filme aliou o medo primordial do que não se vê à narrativa íntima. A cena em que o tubarão salta da água enquanto Brody joga iscas, acompanhada pelo famoso zoom combinado no rosto de Scheider, ainda causa impacto no público.
Steven Soderbergh, outro cineasta notório por sua criatividade no set, viu “Tubarão” aos 12 anos e credita ao filme a inspiração para se tornar cineasta. Ele o chama de “o filme mais disruptivo” dos últimos 50 anos, elogiando sua economia narrativa, inovação técnica e trabalho de personagens. Como Soderbergh afirmou, nenhum dos outros indicados ao Oscar de Melhor Filme naquele ano (“Barry Lyndon”, “Nashville”, “Um Dia de Cão” e “Um Estranho no Ninho”) poderia ter sido feito por apenas um diretor. Mas só Spielberg poderia ter feito “Tubarão”.
A influência do filme vai muito além da tela. Ele estabeleceu o modelo de sucesso de alto conceito e alto retorno dos grandes estúdios, abrindo caminho para “Star Wars”, “Jurassic Park” e o Universo Cinematográfico Marvel. Merchandising, continuações, produtos licenciados – “Tubarão” provou que tudo isso podia gerar lucro e impacto cultural duradouro.

Ainda assim, o próprio Spielberg era cético durante as filmagens. “”Tubarão’ nunca deveria ter sido feito”, disse ele uma vez. “Foi um esforço impossível.” Mas sobreviver ao caos e manter a ambição foi o que transformou o projeto em um clássico. Os temas do filme – homem versus natureza, os limites do controle e o fascínio mítico pelo mar – continuam ressoando.
“Tubarão” atesta que a adversidade pode gerar criatividade, de que as limitações podem impulsionar a inovação e de que as produções mais improváveis podem mudar o cinema para sempre. Cinquenta anos depois, continua sendo uma obra-prima de suspense, narrativa e espetáculo – e um lembrete de que, às vezes, os monstros que não vemos são os mais assustadores.