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"The Capture" se vale da paranoia tecnológica como linguagem do presente

Por Reinaldo Glioche

Há séries que se tornam fenômenos imediatos e outras que, mesmo altamente sofisticadas, permanecem em um território de relativa subestimação. “The Capture”, produção da BBC exibida no Brasil pelo MGM+, pertence claramente ao segundo grupo. Longe de circular com a mesma onipresença cultural de títulos como “Black Mirror”, a série talvez seja, paradoxalmente, uma das expressões mais precisas e contínuas do medo contemporâneo em relação à tecnologia — não o medo abstrato da distopia futura, mas o desconforto muito concreto com o presente.

A diferença central em relação a obra antológica que trata de tecnologia e sociedade é estrutural. “The Capture” não opera como fragmento, mas como sistema narrativo contínuo. Seu foco não é a multiplicidade de futuros possíveis, mas a consolidação de um único eixo temático: a vigilância como instrumento de poder político, militar e institucional. A pergunta que organiza a série não é “o que a tecnologia pode fazer?”, mas “quem controla o que a tecnologia mostra como realidade?”.

Essa premissa, aparentemente simples, se expande ao longo de três temporadas em uma progressão de escala que acompanha a própria evolução do debate público sobre inteligência artificial, desinformação e guerra informacional.

Primeira temporada: a imagem contestada

A temporada de estreia, exibida em 2019, parte de um enquadramento típico do thriller policial britânico. Shaun Emery, interpretado por Callum Turner, é um ex-soldado condenado por assassinato no Afeganistão, cuja sentença é revertida após surgirem dúvidas sobre a autenticidade das imagens que sustentavam sua condenação. O ponto de partida já estabelece o eixo conceitual da série: a imagem como evidência instável.

Quando novas gravações de câmeras de segurança passam a sugerir que Shaun cometeu um sequestro após sua libertação, a narrativa se desloca do campo jurídico para o campo da manipulação perceptiva. A investigação conduzida pela detetive Rachel Carey, interpretada por Holliday Grainger, revela gradualmente a existência de um programa secreto de alteração de imagens de vigilância em tempo real.

Esse sistema, mais tarde identificado como uma operação estatal clandestina, funciona como ferramenta de reescrita do real. O que a série propõe, desde o início, é uma inversão radical da lógica tradicional da prova: não se trata mais de interpretar imagens para chegar à verdade, mas de assumir que a própria imagem pode ser fabricada como verdade.

O resultado é um thriller extremamente eficiente, com ritmo preciso e tensão constante, sustentado por atuações sólidas e uma escrita que equilibra clareza narrativa e complexidade temática. Ainda assim, a temporada já sugere algo maior: o caso de Shaun não é o centro, mas a demonstração inicial de um sistema.

Foto: Divulgação

Segunda temporada: política da manipulação e o programa Correction

Na segunda temporada, lançada em 2022, “The Capture” abandona qualquer resquício de caso isolado e assume explicitamente sua dimensão política. O foco se desloca para o programa conhecido como “Correction”, uma tecnologia desenvolvida pelo governo britânico capaz de manipular imagens e interferir na percepção pública de eventos – e exposto no final do primeiro ano.

Aqui, a série aprofunda sua tese central: a tecnologia não apenas registra a realidade, ela pode reorganizá-la de acordo com interesses institucionais. A “Correction” deixa de ser um experimento clandestino e passa a operar como instrumento geopolítico.

O enredo envolve disputas internas no governo britânico e um acordo de transferência tecnológica com a China, o que amplia a escala da narrativa para o campo da diplomacia internacional e da inteligência estratégica. Dissidências políticas internas e tensões entre aliados tornam-se o pano de fundo para o uso da manipulação de imagens como ferramenta de influência.

É nesse momento que Rachel Carey assume definitivamente o centro da narrativa. De figura investigativa relativamente periférica na primeira temporada, ela se torna a principal bússola moral da série — ainda que essa moralidade seja constantemente colocada em dúvida pelo próprio sistema que ela tenta compreender. Sua posição intermediária entre Estado, inteligência e verdade a transforma menos em heroína e mais em vetor de instabilidade ética.

A presença da CIA na trama reforça outro elemento recorrente: a ideia de que a vigilância e a manipulação de informação não são fenômenos locais, mas globais, atravessando alianças, fronteiras e sistemas institucionais. A segunda temporada amplia, assim, o escopo do medo inicial: já não se trata apenas de câmeras, mas de ecossistemas inteiros de produção de realidade.

Terceira temporada: inteligência artificial e guerra da percepção

A terceira temporada, lançada neste ano, leva essa lógica ao limite. Pensada pelo criador Ben Chanan como parte de uma trilogia, a série avança para um terreno em que ficção científica e realidade contemporânea se confundem de forma quase irreversível.

O ponto de partida é o assassinato do ministro do Interior, figura central do conflito que move o 2º ano. A partir daí, a narrativa se estrutura como uma guerra secreta travada nos bastidores do Estado, em que sistemas de inteligência artificial, deepfakes e operações de desinformação são utilizados como armas estratégicas.

O programa Correction, agora integrado a sistemas mais amplos de IA, deixa de ser apenas uma ferramenta estatal e passa a operar como parte de uma infraestrutura cognitiva mais complexa. A questão já não é apenas quem manipula as imagens, mas como sistemas automatizados podem decidir o enquadramento da própria realidade política.

A série sugere um cenário em que decisões militares e de segurança pública podem ser influenciadas — ou mesmo determinadas — por inteligências artificiais capazes de reconfigurar evidências visuais e narrativas em tempo real. Nesse contexto, a confiança no que se vê se dissolve quase completamente.

Ainda que a terceira temporada apresente algumas fragilidades estruturais e um desfecho menos coeso do que suas ambições sugerem, ela consolida a proposta central da série de que a verdade se tornou um campo de disputa algorítmica.

Estrutura interpretativa

Foto: Divulgação

O núcleo interpretativo de “The Capture” é um de seus pilares mais consistentes. Holliday Grainger sustenta a série com uma performance que equilibra precisão emocional e ambiguidade constante, especialmente à medida que Rachel Carey passa a operar dentro das estruturas que antes investigava.

Callum Turner estabelece o ponto de partida dramático da primeira temporada com Shaun Emery, enquanto nomes como Indira Varma, Ron Perlman, Ben Miles, Killian Scott e Paapa Essiedu ampliam a densidade do universo político e institucional da narrativa ao longo das temporadas.

Mais do que personagens isolados, o elenco funciona como um sistema de vetores dentro de uma estrutura narrativa que depende da instabilidade de perspectivas.

A recepção crítica de “The Capture” tem sido consistentemente positiva, com destaque para sua atualidade temática e para sua capacidade de transformar conceitos técnicos — como deepfakes, vigilância algorítmica e manipulação de dados visuais — em narrativa acessível e tensionada.

A verdade como campo instável

“The Capture” se afirma, ao longo de suas três temporadas, como uma das obras televisivas mais consistentes na tradução do medo tecnológico contemporâneo. Não se trata de uma distopia futura, mas de uma percepção aguda do presente: a ideia de que a realidade é cada vez mais mediada por sistemas que podem editá-la, reorganizá-la ou substituí-la.

Se há um pessimismo estrutural na série, ele não é gratuito. Ele deriva da hipótese central que a narrativa explora de forma cada vez mais radical: a de que a verdade, hoje, não é apenas contestada — ela é produzida, negociada e, em certos contextos, fabricada como instrumento de poder.

Nesse sentido, “The Capture” não apenas retrata o zeitgeist tecnológico contemporâneo. Ela o organiza em forma de thriller, oferecendo uma das leituras mais inquietantes sobre o presente: a de que já não confiamos no que vemos porque o que vemos já não é, necessariamente, o que aconteceu.

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