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“The Abandons” tropeça onde deveria brilhar

Redação Culturize-se

A Netflix vende “The Abandons” como um western moderno turbinado por duas das atrizes mais carismáticas de sua geração, Gillian Anderson e Lena Headey, e embalado pela assinatura autoral de Kurt Sutter. No papel, a fórmula deveria render um épico turbulento, cheio de tensões familiares e disputas territoriais. Na prática, porém, o resultado está muito aquém do que a premissa prometeria. A série tenta equilibrar grandiosidade, melodrama e brutalidade, mas se perde justamente naquilo que deveria sustentá-la: clareza narrativa, ritmo e densidade dramática.

Logo nos primeiros minutos, o roteiro despeja sobre o público uma quantidade quase cômica de personagens, famílias, lealdades, facções e subtramas. Mas, paradoxalmente, não há risco de o espectador se perder. Isso porque “The Abandons” explica tudo em voz alta, como se a sala de roteiristas operasse sob um protocolo rígido de redundância. Personagens anunciam intenções, descrevem suas emoções e até antecipam as cenas que virão. O subtexto some, o mistério evapora e a possibilidade de nuances se torna inviável. É televisão guiada pela mão, temerosa de que o público olhe para o telefone por cinco segundos e perca alguma “complexidade”.

Fotos: Divulgação

Quando a série tenta, de fato, alcançar esse patamar épico, esbarra em sua estrutura estilhaçada. A produção chegou ao fim já sem seu criador — Sutter foi demitido semanas antes da conclusão — e a montagem final denuncia a instabilidade. O ritmo oscila entre episódios com duração de uma hora e outros de 35 minutos, como se a narrativa estivesse sendo rearranjada às pressas. O resultado é um fluxo desigual, que impede que a tensão se sedimente ou que os arcos respirem. Em vez de elegância ou intensidade, o que emerge é uma sensação persistente de desorganização.

A atuação do elenco reforça a impressão de desperdício. Os jovens atores, encarregados dos subplots românticos e identitários, mal conseguem dar vida a personagens que, no papel, deveriam carregar parte da fricção emocional da história. Já os coadjuvantes se confundem uns com os outros, presos em performances quase intercambiáveis de “homens durões do Oeste”.

A força da série deveria residir no confronto entre Constance Van Ness e Fiona Nolan, interpretadas por Anderson e Headey, respectivamente. De fato, quando as duas estão juntas em cena, algo quase funciona: há fagulhas, há presença. Mas até essas atuações acabam limitadas por personagens que não passam de tipificações. Constance é a vilã de traços unidimensionais; Fiona, a heroína endurecida pela sobrevivência. A disputa entre as duas, em vez de ressoar como um embate moralmente complexo, desliza para uma estética de novela de luxo: ameaças sussurradas, revelações previsíveis e um clímax cuja única ausência notável é um lago decorativo para uma briga coreografada.

O pior é que, mesmo assumindo um tom de melodrama — um terreno no qual Sutter tradicionalmente prospera — “The Abandons” não abraça o exagero nem busca profundidade. Fica no limbo. As questões indígenas, raciais e territoriais aparecem como adereços históricos, sem desenvolvimento; a paisagem é bela, mas não significa nada; a violência, ocasionalmente estilosa, não compensa a falta de energia dramática.

Ao final dos sete episódios, o espectador chega a um cliffhanger pouco merecido, que mais sugere improviso do que ambição. Se a série tiver continuidade, terá de resolver não apenas seu destino narrativo, mas sua própria identidade. Porque, apesar do escopo amplo e do talento envolvido, “The Abandons” parece não saber o que quer ser.

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