Redação Culturize-se
A Temporada Cultural França-Brasil 2025, em curso de agosto a dezembro em 15 cidades brasileiras, vai muito além de um intercâmbio entre dois países. Com programação que contempla espetáculos, exposições, residências e fóruns, o evento é um exercício concreto de diálogo transnacional, em que o Brasil contemporâneo se conecta à França, mas também à África e ao próprio passado colonial. Mais do que uma vitrine cultural, trata-se de um espaço para confrontar ideias, rever histórias e projetar futuros possíveis, especialmente quando esses futuros parecem mais incertos do que nunca.
Organizada a partir de três eixos – diversidade, democracia e transição ecológica – a temporada se ancora no conceito de “relação” formulado pelo poeta e filósofo martinicano Édouard Glissant. Para Glissant, a crioulização é um processo de encontros inesperados, de resistências e reconstruções que escapam à lógica das identidades fixas. Ele enxergava no Brasil um território por excelência dessa multiplicidade, fruto do contato entre populações africanas, indígenas e europeias, apagadas e violentadas pela escravidão, mas também protagonistas de reconstruções simbólicas e comunitárias.
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Essa dimensão poética e política da memória atravessa diversas das iniciativas da temporada. Um exemplo é o projeto “Serigrafia Popular – Expressão, Luta e Arte”, de Frawaynne, nascido na favela do Bode, em Recife. Utilizando técnicas acessíveis e materiais recicláveis, o projeto realiza oficinas e forma jovens lideranças em residências artísticas na cidade de Toulouse, França. A proposta articula arte e formação como estratégias de resistência nos territórios periféricos, aproximando-se das ideias de Glissant sobre como os rastros de histórias silenciadas podem ser resgatados no corpo, na voz e na criação coletiva.
A pluralidade do Brasil contemporâneo se mostra também nas 29 propostas contempladas pelo programa Funarte Brasil Conexões Internacionais 2025, com artistas de circo, dança, teatro, música e artes visuais que se apresentarão em cidades como Avignon, Lyon, Paris e Toulouse. A atuação dos artistas em palcos franceses não se limita a apresentações: ela envolve trocas formativas, residências e ações educativas, fortalecendo redes entre coletivos brasileiros e instituições culturais da França. Essas conexões não apenas potencializam a circulação da arte brasileira, mas reafirmam seu poder como forma de pensamento e de transformação social.
Essa potência crítica também se expressa em exposições que compõem a programação da temporada. Uma delas, “O mundo segundo a IA”, em cartaz atualmente em Paris e com chegada prevista ao Brasil em novembro, faz um diagnóstico perturbador sobre o impacto da inteligência artificial no planeta. A mostra não apenas denuncia os vieses racistas, sexistas e coloniais embutidos nos algoritmos que “aprendem” com imagens rotuladas por microtrabalhadores precários do Sul global, como também evidencia o custo ambiental dessa tecnologia supostamente imaterial.
A obra Meta Office, de Lauritz Bohne, Lea Scherer e Edward Zammit, escancara a precarização que sustenta a IA contemporânea. Em espaços claustrofóbicos e por salários irrisórios, milhões de pessoas ao redor do mundo alimentam sistemas como o reconhecimento facial e a categorização de objetos. Já a instalação Anatomia de um sistema de IA, de Kate Crawford e Vladan Joler, decompõe o dispositivo Amazon Echo para mostrar a complexa rede de extração de recursos, trabalho e descarte que permite sua existência – uma cadeia que vai das minas de lítio à obsolescência planejada.
Mais do que objetos técnicos, as máquinas surgem como encarnações de escolhas políticas e econômicas. O artista Trevor Paglen, por exemplo, denuncia os danos reais causados pelos bancos de dados enviesados utilizados no treinamento de IA. Em sua obra Faces do ImageNet, o visitante é confrontado com adjetivos aleatórios – alguns ofensivos – atribuídos a seu rosto, evidenciando como sistemas automatizados podem reforçar estigmas e ameaçar direitos.

Esse olhar distópico sobre o futuro alcança sua radicalidade máxima na instalação A quarta memória, de Grégory Chatonsky, que projeta um mundo sem humanos, povoado apenas por imagens geradas por máquinas a partir de bancos de dados históricos. A pergunta que fica é: em que mundo queremos viver e com que ferramentas podemos transformá-lo?
O clima em foco
A resposta a essa pergunta pode estar, em parte, na exposição O Novo Anormal, uma adaptação brasileira da mostra Urgência Climática, atualmente em cartaz em Paris. A proposta é clara: não estamos à mercê do futuro, mas somos responsáveis por construí-lo. Com recursos interativos – como um cardápio que calcula a pegada de carbono de cada prato -, a mostra provoca o público a repensar seus hábitos e reconhecer o impacto ambiental de escolhas cotidianas.
Essas exposições, apesar de produzidas majoritariamente na Europa, encontram ressonância direta no contexto brasileiro, marcado por desigualdades sociais, crises ambientais e desinformação digital. O Brasil, como enfatiza a viúva de Glissant, Sylvie Glissant, compartilha com o Caribe uma herança comum: a escravidão, o apagamento de memórias, a reconstrução forçada de identidades. Mas também compartilha a potência de resgatar essas histórias pela arte, pela sensibilidade e pelas alianças.
Nesse sentido, os fóruns previstos na programação não são apenas eventos protocolares. O Fórum Nosso Futuro – França-Brasil, Diálogos com a África, que será aberto por Lula e Macron em Salvador, reunirá lideranças e juventudes para discutir justiça territorial, inclusão social e cidades sustentáveis. Já o Fórum Juventude e Democracia, em Brasília, propõe-se a enfrentar temas urgentes como desinformação, economia solidária e igualdade de gênero com jovens de ambos os países.
Se a temporada cultural é, por definição, um espaço de celebração, ela também pode ser – e no caso da França-Brasil 2025, certamente é – um terreno fértil para inquietações. As exposições, espetáculos e debates aqui destacados refletem uma tensão central do nosso tempo: entre a urgência de imaginar futuros e o peso de heranças coloniais que ainda moldam as relações sociais, econômicas e ambientais. Ao mirar essas contradições, a Temporada França-Brasil não apenas reforça laços diplomáticos, mas oferece ao público brasileiro uma oportunidade rara de pensar o mundo – e a si mesmo – em movimento.