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Sustentabilidade hedonista ganha tração na arquitetura moderna

Redação Culturize-se

À primeira vista, o termo sustentabilidade hedonista parece contraditório. Como indulgência pode coexistir com responsabilidade ambiental? No entanto, o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels, fundador do Bjarke Ingels Group (BIG), passou duas décadas provando que sustentabilidade não precisa significar sacrifício — pode também significar alegria, recreação e até luxo. Seus projetos mais ambiciosos, da pista de esqui no telhado de Copenhague aos parques à prova de enchentes em Manhattan, incorporam essa filosofia, redefinindo o que significa construir para o futuro.

O exemplo mais marcante da sustentabilidade hedonista é o BIG U, um projeto de resiliência a tempestades de US$ 2,7 bilhões que envolve o Baixo Manhattan. Na superfície, parece uma rede integrada de parques elevados, piscinas públicas e ciclovias — um espaço público utópico que se estende da Rua 40 Leste à Rua 54 Oeste. Mas sob sua beleza está um sistema de defesa meticulosamente projetado.

  • Os parques exuberantes funcionam como áreas de inundação, com vegetação resistente ao sal.
  • Coberturas ao longo das passarelas se transformam em barreiras contra tempestades.
  • Cada quilômetro de espaço de lazer fica sobre defesas monolíticas contra enchentes, protegendo a cidade do aumento do nível do mar.

Nascido após o Furacão Sandy, o BIG U é mais que infraestrutura — é um catalisador social e ambiental. “É mais fácil conseguir apoio para projetos de resiliência quando eles também oferecem parques, ciclovias e acesso à orla”, diz Jeremy Alain Siegal, associado do BIG. A primeira fase do projeto, o East Side Coastal Resiliency Project, garantiu US$ 335 milhões em financiamento federal justamente por prometer segurança e prazer.

De Copenhague para o mundo: um novo modelo para cidades

O BIG U não surgiu do vácuo. Ele se baseia em experimentos anteriores do BIG em sustentabilidade hedonista, um conceito testado pela primeira vez em 2002 com os Copenhagen Harbour Baths. “Transformamos um porto industrial poluído em um oásis urbano nadável, lembra Ingels. “De repente, sustentabilidade não era mais sobre abrir mão de coisas — era sobre ganhar uma qualidade de vida melhor.”

Esse ethos atingiu seu ápice com o CopenHill, uma usina de energia a partir de resíduos que abriga uma pista de esqui, trilhas de hiking e um paredão de escalada. “O vapor da usina é mais limpo que o ar de Copenhague”, observa Ingels. “Por que não deveria ser também um destino de diversão?” Da mesma forma, The Plus, uma fábrica de móveis norueguesa projetada pelo BIG, integra instalações industriais a uma floresta pública, misturando produção e natureza.

Por que o hedonismo funciona

Além da estética, a sustentabilidade hedonista é uma estratégia pragmática.

  1. Aprovações mais rápidas – Projetos que oferecem benefícios públicos tangíveis (como parques ou pistas de esqui) enfrentam menos obstáculos burocráticos.
  2. Mais investimentos – Governos e investidores privados estão mais dispostos a financiar infraestruturas multifuncionais.
  3. Replicabilidade global – O BIG desenvolveu um manual baseado no BIG U, agora estudado por cidades propensas a enchentes, como Bangcoc, Veneza e Miami.

Outras empresas dinamarquesas estão adotando a tendência, dos estacionamentos flutuantes da Tredje Natur às barreiras contra enchentes da CF Møller disfarçadas de parques naturais.

Uma mudança radical no pensamento arquitetônico

A filosofia de Ingels desafia a austeridade protestante frequentemente associada à sustentabilidade. “Não há virtude em tornar o oceano ‘apenas’ limpo o suficiente para não envenenar as pessoas”, ele argumenta. “Por que não torná-lo tão limpo que você possa nadar nele?”

Ele cita o modernismo brasileiro como inspiração — um estilo que priorizou vibração, terraços e alegria social em vez de funcionalidade rígida. “A arquitetura deve aumentar a felicidade, diz ele. “Se projetarmos cidades para o prazer, as pessoas naturalmente escolherão estilos de vida sustentáveis.”

À medida que os desafios climáticos se intensificam, a visão de Ingels oferece uma alternativa convincente: cidades onde resiliência parece recreação. O BIG U prova que barreiras contra enchentes podem ser parques, usinas de energia podem abrigar pistas de esqui e fábricas podem se fundir a florestas.

No fim, sustentabilidade hedonista não é um oxímoro — é a próxima evolução do design urbano. Como Ingels diz: “A cidade sustentável do futuro não deve pedir que as pessoas suportem menos. Deve dar a elas mais.”

Principais projetos de sustentabilidade hedonista:

  • BIG U (Nova York) – Defesas contra enchentes + parques à beira-mar
  • CopenHill (Copenhague) – Usina de energia + pista de esqui
  • The Plus (Noruega) – Fábrica + floresta pública
  • Copenhagen Harbour Baths – Porto limpo + natação urbana
  • House 8 (Dinamarca) – Edifício multiuso com ciclovias no telhado

Ao unir prazer e praticidade, o BIG prova que as cidades mais verdes podem ser também as mais habitáveis — e as mais divertidas.

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