Reinaldo Glioche
Sofia Coppola fará sua estreia no formato documental com “Marc by Sofia”, um retrato íntimo de seu amigo de longa data e colaborador frequente, o estilista Marc Jacobs. O filme terá sua estreia fora de competição no Festival de Cinema de Veneza de 2025, que acontece entre 27 de agosto e 9 de setembro, e marca o primeiro documentário de longa-metragem sobre Jacobs desde “Marc Jacobs & Louis Vuitton”, de 2007. O título, “Marc by Sofia”, faz alusão direta à extinta linha secundária do estilista, Marc by Marc Jacobs, sinalizando uma abordagem profundamente pessoal sobre sua vida e legado.
Mais do que uma relação convencional entre diretor e personagem, Coppola e Jacobs compartilham uma simbiose criativa que atravessa décadas, alicerçada por uma admiração mútua que une moda e cinema. A amizade teve início nos anos 1990, quando Jacobs escalou Coppola – então mais conhecida por sua sensibilidade cinematográfica emergente e estilo pessoal singular – para diversas campanhas da marca. Ela se tornou uma espécie de musa da grife: foi fotografada por Juergen Teller para o perfume homônimo de Jacobs em 2002, estrelou a campanha de outono/inverno 2015 e chegou a dirigir comerciais da linha de fragrâncias Daisy.
A colaboração se aprofundou durante a transformação que Jacobs promoveu na Louis Vuitton entre 1997 e 2013, trazendo uma visão ousada e influenciada pela cultura pop à maison francesa. Coppola foi presença constante nesse período, não apenas como amiga, mas como influência criativa: trabalhou com Jacobs no design de acessórios e era figura cativa nas primeiras filas dos desfiles da marca, encarnando a elegância discreta e a feminilidade subversiva que ambos defendem. O diálogo entre as estéticas dos dois – a opulência lúdica dele, o romantismo contido dela – já era visível então e segue presente nas colaborações mais recentes, como a linha Heaven by Marc Jacobs, voltada à Geração Z.
A incursão de Coppola no cinema não ficcional ocorre em um momento de expansão criativa e reflexão. Recentemente, ela celebrou os 25 anos de “As Virgens Suicidas”, seu filme de estreia, com um livro de fotos que revisita os visuais melancólicos da obra. Ao mesmo tempo, colaborou com a Chanel na criação de um livro e de um podcast sobre a herança da alta-costura da maison – mais uma prova de sua afinidade duradoura com o universo da moda. Sua visão artística sempre dialogou com o vestuário: seus filmes são marcados tanto pela atmosfera e pelo figurino quanto pela trama, e suas protagonistas frequentemente usam a moda como forma de rebelião silenciosa.
Para Marc Jacobs, que apresentou sua coleção de outono 2025 na Biblioteca Pública de Nova York, o documentário chega em um momento introspectivo de sua carreira. Desde a fundação de sua marca em 1984, ele tem redefinido os contornos da moda americana, oscilando entre o vanguardismo urbano e os excessos teatrais de Paris. O que “Marc by Sofia” revelará sobre essa trajetória ainda é incerto, mas o cerne emocional da obra deve estar na afinidade criativa entre diretor e retratado.
Esse vínculo – forjado pela amizade, pela construção de imagens e por uma sensibilidade compartilhada – promete conferir a “Marc by Sofia” uma delicadeza e uma perspectiva raras em filmes biográficos sobre moda. Mais do que um registro da carreira de Jacobs, o documentário se apresenta como uma reflexão sobre arte, estilo e o poder duradouro das afinidades criativas. Sua estreia em Veneza deve ser um dos eventos mais aguardados da temporada de festivais.