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Sobreviver não basta: o cinema de Danny Boyle como lição de mortalidade e afeto

Por Reinaldo Glioche

O filme mais famoso de Danny Boyle começa com uma recusa. Em “Trainspotting”, Renton (Ewan McGregor) rejeita o mantra da cultura consumista dos anos 1980 – “Choose Life”. Para ele, viver significa apenas hipotecas, micro-ondas e uma previsibilidade entediante. Por que escolher isso, se a heroína oferece fuga? Ainda assim, mesmo quando insiste em não escolher nada, seu corpo o trai. A juventude não o deixa morrer. Ele corre por Edimburgo, se injeta, desmaia, vomita, sobrevive. A vida insiste em si mesma.

O cinema de Boyle frequentemente circula nesse paradoxo: o impulso humano de rejeitar a vida e a teimosa vontade do corpo em persistir. Sete anos após “T”rainspotting”, ele retomaria esse tema em “Extermínio” (28 Days Later). Jim (Cillian Murphy) acorda em um hospital e descobre um mundo devastado por um vírus. Mais uma vez, é a juventude que o salva: ele corre rápido, cicatriza rápido, se adapta. Selena (Naomi Harris), endurecida pela necessidade, repete um mantra oposto ao de Renton: “Ficar vivo é tudo o que importa.” A sobrevivência é reduzida à sua mecânica – latas de fruta, Pepsi, uma faca na mão.

Essas histórias são filhas da era da AIDS, assombradas por um vírus que tornou a mortalidade inescapável. Em “Trainspotting”, Tommy (Kevin McKidd) sucumbe à doença. Em “Extermínio”, o vírus da raiva é um eco grotesco desse pânico, espalhando-se pelo sangue e pelo contato. A morte se aproxima, mas nunca toca de fato os jovens heróis no centro. Eles vivem suspensos na ilusão de que sobreviver é garantido.

Foto: Divulgação

Mas a juventude não dura. Quando Boyle revisitou seus viciados em “T2 Trainspotting”, a ilusão já havia se rompido. Renton retorna com um coração marcado por cirurgias, Sick Boy (Johnny Lee Miller) vive de golpes mal-ajambrados, Spud (Ewen Bremner) tropeça em um mundo digital que mal compreende. Eles continuam vivos, mas a sobrevivência azedou em rotina: trabalhar, enganar, recair, repetir. O novo monólogo “Choose Life” de Renton cataloga nosso presente digital vazio — consumismo travestido de conexão, solidão disfarçada de liberdade. A ironia da sobrevivência é que ela vem sem significado.

Agora, em “Extermínio: A Evolução” (28 Years Later), o foco muda novamente. Spike (Alfie Williams), nascido na praga, não conhece nada além da sobrevivência. Quando sua mãe adoece, ele parte em busca não apenas de remédio, mas de sentido. Aprende, como sempre aprendem os personagens de Boyle, que sobreviver sozinho não basta. É preciso também lembrar da mortalidade – memento mori – e se apegar ao amor – memento amoris.

Os filmes de Boyle esboçam uma trilogia silenciosa da vida humana: a juventude acredita ser imortal, a meia-idade confronta o vazio da mera sobrevivência, e a velhice aprende a dobrar a morte dentro do amor. A lição não é rejeitar a vida, nem venerar a sobrevivência, mas aceitar ambos como frágeis, temporários e suportáveis apenas pela conexão.

“Escolha a vida. Lembre-se da morte. Lembre-se do amor.” O mantra se transforma ao longo das gerações, mas sua verdade permanece a mesma. Sobreviver não é suficiente. O que importa é como vivemos – e quem seguramos perto de nós enquanto ainda podemos.

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