Por Reinaldo Glioche
Com um time de atrizes convidativo, capitaneado pela sempre obrigatória Julianne Moore, a minissérie “Sereias”, hit nos trackers recentes da Netflix, instiga o público com um mistério, mas o cativa com um comentário par lá de interessante sobre mulheres tóxicas consigo mesmas e com outras mulheres.
Criada por Molly Smith Metzler, produtora e roteirista de outros sucessos da plataforma como “Maid” e “Orange is the New Black”, produção é estrelada por Julianne Moore, Meghann Fahy, Milly Alcock e Kevin Bacon.
A trama acompanha Devon (Meghann Fahy), que viaja para uma ilha luxuosa durante o fim de semana do Dia do Trabalhador para visitar sua irmã mais nova, Simone (Milly Alcock). Ao chegar, Devon percebe que Simone está envolvida em uma relação intensa com sua chefe, a enigmática socialite Michaela Kell (Julianne Moore), que domina tanto a ilha quanto o coração de Simone. Tudo na ilha, inclusive a devoção de Simone por Kiki, como carinhosamente chama Michaela, parece suspeito. Não ajuda o fato de Devon ser uma alcoólatra em recuperação, com um possível vício em sexo e ostentar uma relação problemática com sua irmã e seu pai, que apresenta sinais avançados de demência, e razão pela qual ela está no encalço de Simone.
A série se desenrola ao longo de um fim de semana explosivo na opulenta propriedade costeira dos Kell, oferecendo um retrato incisivo e irônico das dinâmicas femininas, hierarquias sociais e jogos de poder. Metzler descreve a obra como uma verdadeira comédia negra, com momentos de desconforto e uma vibração que remete à mitologia grega. Ela está certa. A obra, a primeira em que ela atua como showrunner, vai de momentos de suspense genuíno a cenas que beiram o nonsense, mas o motor da trama não é o mistério que a sinopse acena, mas justamente essa intrincada relação de poder, abuso e sedução que se estabelece entre as três protagonistas femininas.
Nesse contexto, os personagens masculinos, embora interfiram nesses conflitos, são desdobramentos dessas personas poderosas e complexas defendidas com desenvoltura e camadas insuspeitas por uma trinca de atrizes inspiradas.
A mitologia grega reforça essa percepção, já que as sereias são seres que desestabilizam os homens e as três personagens femininas trafegam por essa realidade, mas é Michaela, a princípio percebida como vilã, e sua sanha por controle, em especial sobre o marido, Peter Kell, vivido com a habitual sagacidade por Kevin Bacon, quem dinamiza os conflitos entre as personagens femininas.
O brilhantismo do plot twist no último episódio deriva justamente dessa construção, que parece marginal à trama, mas a ressignifica por completo, adensando justamente os temas mais importantes para a narrativa erigida por Metzler.

