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Gabriel Trigueiro transforma crítica de cinema em trincheira literária contra o algoritmo

Por Reinaldo Glioche

O lançamento do novo livro de Gabriel Trigueiro, “Cinéfilo Nem é Gente” (Editora Sapopemba), surge como um gesto deliberado de afirmação da crítica de cinema não apenas como exercício analítico, mas como forma literária autônoma. É, sobretudo, uma via de resistência em um ecossistema cultural marcado pela fragmentação, pela velocidade e pela lógica algorítmica. Reunindo textos publicados em newsletters, jornais de grande circulação e dois ensaios inéditos, a obra consolida uma trajetória que se construiu à margem das facilidades da opinião instantânea, apostando na escrita como método, posição ética e forma de mediação cultural.

Para Trigueiro, o fortalecimento da crítica não é um paradoxo em tempos de redes sociais e sites agregadores; é, antes, uma necessidade histórica. Ele reconhece que a internet, em sua fase inicial, representou uma ruptura genuinamente revolucionária ao desafiar antigos gatekeepers e ampliar o acesso ao discurso cultural. No entanto, essa promessa teria sido capturada por uma nova estrutura de poder. “O que emergiu dos destroços da antiga ordem foi uma aristocracia partidária”, afirma, ao descrever a consolidação de uma oligarquia tecnológica que se apresenta como democrática, mas opera por concentração e controle. Nesse cenário, o crítico assume uma função de confronto direto com a linguagem do marketing. Como resume, evocando Pauline Kael, “o papel do crítico é o de ser uma barricada entre a audiência e a divisão de marketing do estúdio”.

Essa visão atravessa toda a reflexão de Trigueiro sobre o ato de ver, ler e escrever sobre cinema. Ao contrário da ideia romântica de uma fruição “pura”, desprovida de mediações — frequentemente associada a frases célebres como a de Truffaut sobre o espectador atraído apenas pelo cartaz —, ele sustenta que o consumo crítico faz parte da experiência contemporânea. “O mundo tá aí: é um lugar complicado, bagunçado e, sem dúvida alguma, nada puro”, observa. Ler críticas antes e depois de assistir a um filme, para ele, não empobrece o encontro com a obra, mas o complexifica. O cuidado com spoilers, embora legítimo, não deve se transformar em dogma: “em alguns casos, tomar um, no meio da cara, pode sim empobrecer a sua experiência. Na dúvida, acho razoável evitar”.

O autor Gabriel Trigueiro | Foto: Lucas Landau

Ao abordar as diferenças entre criticar filmes e séries, Trigueiro recorre a uma analogia literária recorrente, mas produtiva: o cinema como conto, a série como romance. Ele reconhece a potência narrativa quase infinita do formato seriado, capaz de desenvolver personagens e tramas ao longo de dezenas de horas, como exemplificado por “The Wire”, frequentemente comparada à obra de Dickens. Ainda assim, alerta para os limites da transposição entre formas. “Um filme, mesmo um filme longo, não tem como competir com uma série”, diz, ao mesmo tempo em que lembra que grandes gênios da televisão, como David Chase, não necessariamente alcançaram o mesmo impacto no cinema. Para o crítico, compreender essas especificidades é condição básica para qualquer análise minimamente honesta.

A escrita, aliás, ocupa o centro de sua concepção de crítica. Trigueiro é enfático ao afirmar que conhecer cinema é insuficiente sem domínio da linguagem. Seu repertório se ancora tanto em críticos brasileiros quanto em autores da literatura e da não ficção. Ele cita os textos teatrais de Bárbara Heliodora como modelo de rigor e coragem intelectual, defende Paulo Francis como um estilista singular da língua e resgata a prosa precisa de Marques Rebelo. No campo internacional, destaca Joan Didion como referência incontornável: “na não-ficção é imbatível”. Para Trigueiro, escrever bem não é ornamento, mas estrutura. É o que permite à crítica existir como literatura e não como legenda estendida.

Quando provocado sobre um suposto afastamento do jornalismo cultural em relação ao público, Trigueiro recusa diagnósticos fáceis. Em vez disso, recorre a uma imagem de Bergman, mediada por Truffaut: a do pastor que reza sozinho diante de uma igreja vazia em “Luz de Inverno”. A cena, segundo ele, funciona como alegoria da produção artística. Pensar excessivamente no público pode se tornar uma armadilha. “A partir do momento que você pensa no público ou em dialogar com quem quer que seja, você se torna escravo de um fantasma”, afirma. Para ele, o público deve ser ignorado como ruído ou tratado como interlocutor à altura — nunca como abstração estatística.

Essa postura crítica não impede, contudo, o reconhecimento de plataformas digitais que ampliam a cinefilia. Trigueiro vê no Letterboxd um raro exemplo positivo de gamificação cultural. “Você consegue descobrir coisas interessantes, ainda por cima escreve e lê sobre cinema”, diz, mesmo admitindo manter distância pessoal da ferramenta. O elogio é revelador: não se trata de rejeitar a tecnologia em si, mas de questionar os modelos de curadoria que delegam decisões culturais a algoritmos opacos.

O livro nasce justamente desse atrito entre produção autoral e circulação digital. A organização dos textos — majoritariamente oriundos das newsletters Nada de Errado Nisso e Conforme Solicitado, além de colaborações para Folha de S.Paulo e O Globo — foi idealizada pelo editor Mauro Albano, com participação ativa do autor na seleção e na ordem de leitura. O resultado é um percurso que atravessa filmes recentes, séries populares, ensaios sobre cineastas e reflexões mais amplas sobre cultura, sem hierarquias artificiais entre “alto” e “baixo”.

No mapeamento do cinema contemporâneo, Trigueiro aponta nomes associados à A24, como Ari Aster e os irmãos Safdie, além de cineastas como Halina Reijn, do recente “Babygirl”, Gia Coppola e Lena Dunham, cuja direção considera subestimada. Também destaca o trabalho televisivo de Hiro Murai, de “Atlanta”, reforçando seu interesse por autores que transitam entre linguagens.

Essa defesa do cinema como experiência histórica e material ganha contornos mais contundentes quando ele aborda a rivalidade entre cinema e streaming. “Sou totalmente team cinema”, afirma, sem rodeios. Para Trigueiro, o risco não é apenas industrial, mas civilizacional: “se você piscar e der mole, [o streaming] simplesmente apaga a história do cinema”. A dependência do algoritmo, diz, representa “a negação da arte e, mais do que isso, da própria vida”.

Foto: Divulgação

Por fim, ao comentar o atual momento do cinema brasileiro, marcado por uma reaproximação com o público, Trigueiro adota um tom cauteloso. Reconhece a força do momento, mas rejeita fórmulas de perpetuação. Esses ciclos, para ele, são “sazonais” e fruto de múltiplos fatores. Ainda assim, expressa uma esperança clara: que esse impulso deixe marcas duradouras, “pelo menos uma geração — de criadores, claro, mas de público e de crítica também”.

O livro de Gabriel Trigueiro, assim, se impõe menos como síntese definitiva e mais como tomada de posição: uma defesa da crítica como literatura, do cinema como arte histórica e da escrita como gesto político em um tempo que insiste em reduzir tudo a ruído.

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