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Quando músculo vira gordura: os perigos da sarcobesidade

Redação Culturize-se

Com o avanço da idade, o corpo humano passa por transformações fisiológicas inevitáveis. Entre elas, destacam-se a perda de massa e força muscular, conhecida como sarcopenia, e o acúmulo de gordura corporal, característico da obesidade. Quando essas duas condições se manifestam simultaneamente, surge um quadro clínico que tem ganhado notoriedade na comunidade científica e preocupação nos sistemas de saúde: a sarcobesidade, também chamada de obesidade sarcopênica. O distúrbio, que afeta principalmente a população idosa, representa um risco significativo à saúde por somar os efeitos deletérios da obesidade aos impactos funcionais da sarcopenia.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam a urgência do tema: estima-se que o número de pessoas acima dos 65 anos dobre até 2050, alcançando 1,6 bilhão de indivíduos. Isso significa que mais pessoas estarão expostas à sarcobesidade, aumentando os desafios clínicos e econômicos associados ao envelhecimento. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP), decidiram investigar a fundo o tema. A nutricionista Gabriela Ortiz, do Laboratório de Fisiologia do Exercício e Metabolismo (LAFEM), e a professora Ellen Cristini de Freitas, coordenadora de outra linha de pesquisa sobre o tema, conduziram revisões bibliográficas que apontam os principais desafios, fatores de risco e estratégias promissoras de tratamento não farmacológico para a sarcobesidade.

Um dos primeiros entraves é a ausência de critérios diagnósticos padronizados para a condição. Ainda não há consenso sobre os valores de referência para massa muscular, gordura corporal e desempenho funcional que caracterizariam a sarcobesidade. No entanto, estudos com uso de DXA (Absorciometria de Raios X de Dupla Energia), técnica que avalia massa óssea, muscular e gordura, estimam que cerca de 15% das pessoas entre 60 e 69 anos e 40% das com 80 anos ou mais já apresentam o quadro. E embora mais comum em idosos, também pode acometer adultos jovens obesos, sedentários, com alterações hormonais ou submetidos a cirurgias bariátricas sem o devido acompanhamento nutricional.

A preocupação com a sarcobesidade se justifica pelos riscos à saúde física, metabólica e funcional. Além de estar associada a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão e inflamação sistêmica, a perda de massa muscular reduz a mobilidade, aumenta o risco de quedas, fraturas e dependência. A combinação de sarcopenia e obesidade potencializa o risco de complicações crônicas, reduzindo a qualidade de vida e a autonomia dos pacientes.

Diante desse cenário, Ortiz e Freitas destacam três abordagens terapêuticas não farmacológicas com grande potencial: suplementação com taurina, manejo da microbiota intestinal e prática regular de exercícios físicos. A taurina, aminoácido presente em tecidos como cérebro, músculos e coração, tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Sua suplementação em idosos, em doses entre 1,5g e 3g ao dia, tem mostrado resultados promissores, como redução do catabolismo muscular, melhora na sensibilidade à insulina e regulação do metabolismo. Um estudo conduzido por Ellen Freitas revelou que mulheres com obesidade suplementadas com taurina apresentaram aumento da produção de adiponectina, proteína essencial para o metabolismo e o controle da inflamação.

Foto: Reprodução/BBC

Apesar dos resultados positivos, a maioria das evidências ainda é baseada em estudos com animais e experimentos in vitro. “São necessários mais ensaios clínicos bem controlados com populações humanas para consolidar a taurina como uma intervenção terapêutica segura e eficaz”, ressalta Ortiz.

Outra via promissora é a modulação da microbiota intestinal. Com o envelhecimento e a obesidade, há uma alteração na composição das bactérias intestinais, favorecendo o desequilíbrio inflamatório e comprometendo a absorção de nutrientes e a síntese proteica. Estudos apontam que a adoção de dietas ricas em fibras, probióticos e prebrióticos pode restaurar esse equilíbrio, contribuindo para a manutenção da massa muscular e o controle da gordura corporal. “A relação entre intestino e músculo é mediada por compostos produzidos por bactérias benéficas, que reduzem a inflamação e estimulam a síntese proteica”, afirma Ortiz.

Por fim, a prática de atividade física surge como uma intervenção essencial e de baixo custo. Embora muitos idosos enfrentem barreiras para se exercitar, como dores, limitações motoras ou falta de motivação, os especialistas defendem que o treinamento de força, combinado a exercícios aeróbicos, oferece resultados significativos. O American College of Sports Medicine recomenda que pessoas com mais de 65 anos pratiquem atividades que desenvolvam múltiplas capacidades corporais, incluindo força, flexibilidade e equilíbrio. “Exercícios de resistência promovem o aumento da massa muscular, enquanto os aeróbicos auxiliam na redução da gordura corporal e melhoram o bem-estar geral”, resume Ortiz.

Para Ellen Freitas, é fundamental que o enfrentamento da sarcobesidade seja compreendido como uma estratégia de saúde pública. “Mais do que medicamentos e tecnologias sofisticadas, é preciso garantir acesso a alimentação saudável, incentivo à prática de exercícios e informação de qualidade para a população”. Ela reforça que o combate à sarcobesidade não depende exclusivamente de investimentos em infraestrutura hospitalar, mas do fortalecimento de políticas que promovam envelhecimento ativo e bem-estar.

Os especialistas concordam que o tratamento da sarcobesidade deve ser multifatorial e integrado. “As ações combinadas, como exercícios resistidos, dieta adequada, suplementação dirigida e cuidado com a microbiota intestinal, têm maior potencial para melhorar a composição corporal e a qualidade de vida dos idosos”, conclui Diogo Toledo.

Num mundo em que o envelhecimento populacional se acelera, compreender, diagnosticar e prevenir condições como a sarcobesidade se torna tarefa urgente. E, ao que tudo indica, os caminhos mais promissores ainda estão no que é simples: movimento, comida de verdade e cuidado integral.

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