Redação Culturize-se
Com “Lux”, Rosalía leva adiante a vocação de romper convenções que moldou sua trajetória desde “El Mal Querer”. Se em “Motomami” a catalã reinventou a linguagem do pop ao misturar reggaeton, flamenco e hip hop, aqui ela realiza seu salto mais ousado, que é transformar a espiritualidade em matéria musical, combinando a tradição clássica com a eletrônica contemporânea em uma obra que não se assemelha a nada que a esfera pop produziu nos últimos anos. Gravado com a Orquestra Sinfônica de Londres e arranjos de Caroline Shaw, “Lux” abre com uma prece – “Quién pudiera venir de esta tierra / Y entrar en el cielo / Y volver a la tierra” – que já antecipa a vocação transcendente do disco.
Essa ambição se materializa em faixas como “Berghain”, inspirada em Bach e Verdi, onde cordas tocadas com facas serrilhadas convivem com rap de Yves Tumor e uma intervenção “divina” de Björk. A mistura entre canto lírico e pulsos eletrônicos revela um projeto que não busca conciliação, mas choque – aquilo que Rosalía vem lapidando desde sua formação clássica na Escola Superior de Música da Catalunha. A cantora leva esse impulso ao extremo em “Mio Cristo piange diamanti”, evocando a intensidade dramática de Maria Callas, enquanto em “Reliquia” desmonta e reconstrói um quarteto de câmara com precisão cirúrgica.
O caráter verdadeiramente revolucionário de “Lux” se evidencia também no uso de treze idiomas, fruto de um processo minucioso que envolveu traduções preliminares, consultas a nativos e reescritas exaustivas. A fluidez com que a artista atravessa catalão, japonês, latim, francês e hebraico dentro da mesma faixa não é mero virtuosismo técnico, mas parte da busca por uma música “universal”, conectada à ideia bíblica das “línguas de fogo”. Essa dimensão aparece com força na segunda metade do álbum, quando Rosalía retorna às raízes ibéricas em “La rumba del perdón” e mergulha no fado português ao lado de Carminho em “Memória”.

Mas “Lux” não é apenas um tratado espiritual; é também um retrato íntimo de convulsões pessoais. O término com Rauw Alejandro e a reformulação de sua carreira ecoam em faixas de dor e fúria, como “La Perla”, onde a popstar desfere insultos embalados por uma irônica valsa. Outras canções revelam uma busca por transcendência após o colapso afetivo, como “Sauvignon Blanc” e “Divinize”, em que o desejo de purificação se mistura à autorreflexão.
O encerramento, com “Magnolias” e “La Yagular”, oferece o momento mais sereno do projeto: aceitação da morte, celebração da humanidade e o chamado de Patti Smith para “atravessar para o outro lado”. É o gesto final de um álbum que reafirma Rosalía como uma visionária e atesta seu poder de transformar sofrimento, fé e experimentação radical em uma obra que expande os limites do pop e da própria linguagem musical.