Por Reinaldo Glioche
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Robert Redford consolidou-se como um dos nomes centrais do cinema norte-americano, não apenas pelo talento como ator, mas também pela habilidade em escolher parcerias criativas que ampliaram seu alcance artístico. Duas dessas alianças foram particularmente decisivas: a com o diretor Sidney Pollack e a com o ator Paul Newman. Em ambos os casos, a relação extrapolou os limites do set de filmagem, moldando não só trajetórias individuais, mas também a memória coletiva do cinema.
A sintonia com Sidney Pollack
Robert Redford e Sidney Pollack construíram uma das colaborações mais frutíferas entre ator e diretor em Hollywood. Trabalharam juntos em sete filmes, ao longo de três décadas, atravessando diferentes gêneros e fases da indústria. O primeiro encontro foi em “Caçada Humana” (1966), drama em que Redford contracenava com Natalie Wood. A partir dali, ficou claro que havia uma química artística capaz de transformar histórias em retratos complexos do ser humano.
Vieram em seguida obras como “Mais Forte que a Vingança” (1972), um épico sobre a vida solitária nas montanhas do Oeste americano, que reforçou a imagem de Redford como símbolo de masculinidade contemplativa e conectada à natureza. Logo depois, o sucesso de “Nosso Amor de Ontem” (1973), no qual Redford viveu o jornalista Hubbell Gardiner ao lado de Barbra Streisand, mostrou seu alcance como galã romântico, capaz de unir charme a profundidade emocional.
O auge da parceria talvez tenha sido “Três Dias do Condor” (1975), thriller político que captou a atmosfera de paranoia do pós-Watergate. Pollack soube explorar o carisma de Redford, mas também a sua inquietação com os rumos da sociedade americana. Essa preocupação com temas políticos voltaria em outras colaborações, como “O Cavaleiro Elétrico” (1979) e “Entre Dois Amores” (1985). Este último, vencedor do Oscar de Melhor Filme, consagrou a dupla como sinônimo de prestígio e solidez criativa em Hollywood.
A importância da relação para ambos é inegável. Pollack encontrou em Redford um ator capaz de traduzir em gestos e silêncios a complexidade de seus personagens, ao passo que Redford encontrou no diretor um guia para papéis que equilibravam apelo popular e densidade dramática. Juntos, eles ajudaram a redefinir o cinema comercial americano dos anos 1970 e 1980, inserindo nele nuances políticas, existenciais e românticas.

A química com Paul Newman
Se a aliança com Pollack foi de ordem criativa e estética, a parceria com Paul Newman teve um sabor quase mítico. Newman e Redford contracenaram juntos apenas duas vezes, mas foram suficientes para entrar para a história. O primeiro encontro aconteceu em “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969), faroeste dirigido por George Roy Hill. A química entre os dois atores era tão natural que o filme se tornou um clássico instantâneo, reinventando o gênero com humor, melancolia e uma amizade que transbordava da tela.
Quatro anos depois, voltaram a se encontrar em “Golpe de Mestre” (1973), novamente sob direção de Hill. Desta vez, viveram dois vigaristas que aplicam um elaborado golpe nos anos 1930. O longa venceu sete Oscars, incluindo o de Melhor Filme, e consolidou a dupla como um fenômeno cultural. A cumplicidade entre Newman e Redford, marcada por olhares cúmplices e diálogos afiados, tornou-se um modelo de parceria cinematográfica.
Fora das câmeras, a amizade entre os dois também foi duradoura e profunda. Compartilhavam valores semelhantes, como o engajamento político, o gosto pela vida ao ar livre e a desconfiança em relação às convenções de Hollywood. Essa ligação pessoal transparecia em cena, dando verossimilhança a personagens que, acima de tudo, eram cúmplices.
Parcerias que atravessam o tempo
O cinema é repleto de colaborações marcantes, mas poucas resistem ao tempo como as de Robert Redford com Sidney Pollack e Paul Newman. No primeiro caso, tratou-se de uma longa jornada artística que explorou os dilemas da modernidade americana. No segundo, de uma amizade transformada em mito cinematográfico.
Essas relações não apenas ajudaram a consolidar a carreira de Redford como um dos maiores astros de sua geração, mas também revelaram um artista atento à importância da coletividade no processo criativo. Afinal, sua trajetória mostra que, mesmo para um ícone, os grandes momentos raramente são construídos sozinho.
