Por Reinaldo Glioche
Após quase três décadas de acrobacias eletrizantes, conspirações obscuras e Tom Cruise arriscando a vida de formas cada vez mais criativas, a franquia Missão: Impossível parece ter chegado ao seu destino final com “O Acerto final”. Divulgado como o grandioso encerramento da amada série, o oitavo filme chega cercado de expectativas elevadas, anos de atrasos na produção e um cenário cinematográfico cada vez mais complexo. O resultado é um filme que tanto celebra quanto sofre sob o peso de seu próprio legado — uma conclusão ambiciosa, solene e imperfeita, que tenta amarrar trinta anos de espionagem de alto nível com uma reflexão sobre o futuro da humanidade.
Para alguns fãs, “O Acerto Final” entrega exatamente o que promete. Tom Cruise, mais uma vez no papel do superespião Ethan Hunt, mergulha de cabeça em acrobacias mortais e introspecção emocional com igual intensidade. O filme retoma a narrativa de “Acerto de Contas”, com Hunt correndo contra o tempo para deter uma inteligência artificial descontrolada conhecida como a Entidade. As apostas nunca foram tão altas, e a ação nunca pareceu tão pessoal — ou tão desesperadora. Na estreia em Cannes, onde o filme foi aplaudido de pé por cinco minutos, Cruise descreveu a história como uma “culminação dos últimos 30 anos”, moldada não apenas por ambições cinematográficas, mas também pelos desafios de uma pandemia e duas greves em Hollywood.
No entanto, nem todas as reações foram tão entusiasmadas. Alguns críticos e espectadores acharam o longa excessivamente carregado, obcecado por sua própria mitologia e atolado em reflexões filosóficas baratas. Em comparação com títulos anteriores como “Efeito Fallout”, “Nação Secreta” ou “Protocolo Fantasma”, o tom deste novo filme representa uma ruptura brusca. Onde os anteriores apostavam em emoções elegantes, humor rápido e escapismo estilizado, “O Acerto final” abraça uma atmosfera apocalíptica. Desde os primeiros momentos, com declarações sombrias como “a verdade está desaparecendo, a guerra está chegando”, o filme deixa claro que não se trata apenas de mais uma aventura de espionagem — é uma meditação sobre a fragilidade da civilização e os perigos assustadores do poder tecnológico sem controle.
O que depõe contra esses esforços temáticos é que falta estofo dramático e assertividade conjuntural para dar liga. Ethan Hunt não é Neo, o herói relutante de “Matrix”, e os conflitos que movem este derradeiro (?) filme surgem deslocados.
Ação emocional
O diretor e coroteirista Christopher McQuarrie, colaborador frequente de Cruise, traz de volta sua assinatura nos efeitos práticos e nas cenas de ação intrincadas. Duas sequências de destaque lembram o que fez a série durar tanto tempo: um mergulho angustiante no gélido Pacífico Norte e uma perseguição aérea de biplano pelos céus da África do Sul. Esta última, amplamente promovida antes do lançamento, mostra Cruise caminhando entre as asas de um biplano em gravidade zero — mais uma entrada em seu crescente currículo de façanhas de tirar o fôlego. Como disse McQuarrie na pré-estreia em Nova York: “Você vai assistir a um filme no qual [Tom] supera tudo isso repetidamente”. E ele não está errado.
Mas, para cada momento eletrizante, há longos trechos de exposição entregues em tons graves e sussurrados, em salas mal iluminadas. O filme muitas vezes emperra sob o peso de suas ambições narrativas, recorrendo a flashbacks, flashforwards e, como brincou um crítico, até “flashs laterais” para explicar a trama. Com quase três horas de duração, “O Acerto Final” põe à prova a paciência até mesmo dos fãs mais devotados. A complexidade do enredo pode soar mais como um fardo do que como um quebra-cabeça, e apesar de todo o discurso sobre dilemas morais e riscos globais, algumas lógicas simplesmente não resistem ao escrutínio. Como uma IA onisciente, que ameaça a aniquilação global, é derrotada ao se unir dois pendrives? E por que a peça tecnológica mais vital — o suposto “antídoto” contra a Entidade — é deixada esquecida no bolso de um casaco?







Tais falhas de lógica narrativa não seriam tão problemáticas se o filme compensasse com humor ou emoção. Mas, em vez do charme espirituoso que outrora definiu a franquia, recebemos uma dose pesada de angústia existencial – também esta mal manipulada pelo roteiro e direção. A trilha sonora de Max Aruj e Alfie Godfrey aposta em tons menores, trocando o tema icônico e pulsante de Lalo Schifrin por uma ambientação mais soturna. A estética vibrante da franquia se apaga, com cenas que se desenrolam em cavernas submersas, bunkers escuros e túneis subterrâneos. O mundo se torna claustrofóbico — literal e tematicamente.
E ainda assim, para alguns espectadores, essa virada faz sentido. Após anos de cinema espetacular, Cruise e McQuarrie talvez tenham direito a uma certa introspecção. “O Acerto Final” funciona tanto como culminância cinematográfica quanto como canto do cisne, permeado por nostalgia e autoconsciência. McQuarrie até tenta injetar uma mensagem global, pedindo união além de nações e ideologias — um apelo por um propósito comum diante do perigo coletivo. Em teoria, é uma mensagem admirável. Na prática, é enfraquecida pelo clichê hollywoodiano de sempre: quando tudo está em jogo, ainda são os americanos que salvam o mundo.
O desempenho nas bilheteiras pode, em última análise, determinar se esta é realmente a última missão de Ethan Hunt. Embora “Acerto de Contas” tenha enfrentado dificuldades comerciais, em parte devido à concorrência da avalanche Barbenheimer, “O Acerto Final” chega aos cinemas com ainda mais peso nos ombros. Com um orçamento que ultrapassa os US$ 300 milhões de dólares do filme anterior, ele precisará bater recordes da própria franquia apenas para se pagar. Uma tarefa árdua para qualquer filme — mesmo um que mostre Tom Cruise pendurado em um biplano.
Indesviável mesmo é o fato de que “O Acerto Final” é uma despedida agridoce. Não alcança os voos mais altos nem o impacto visceral dos melhores momentos da série, mas carrega reverência suficiente pelo passado e ambição o bastante em sua conclusão para soar, se não inteiramente satisfatório, ao menos sinceramente construído. O comprometimento de Cruise, tanto físico quanto emocional, continua inigualável. Sua atuação aqui vai além das acrobacias: é uma ode final ao personagem que ele incorporou com intensidade inabalável.
“O Acerto Final” talvez não ofereça o escapismo que alguns esperavam, nem a coerência que outros desejavam. É, no entanto, um testamento ao estranho e singular experimento que foi Missão: Impossível — uma franquia que mesclou paranoia da Guerra Fria, ansiedade tecnológica pós-11 de setembro e espetáculo blockbuster em uma das marcas mais duradouras de Hollywood. Se essa é realmente a última missão, ainda não se sabe. Mas se for, Cruise, McQuarrie e toda a Força Missão Impossível deixaram tudo em campo. E talvez, só talvez, isso seja o bastante.