Por Reinaldo Glioche
O cenário partidário brasileiro vive um momento de intensa reorganização com a formalização de duas alianças que prometem redesenhar a correlação de forças para as eleições de 2026. Na terça-feira (29), tanto o PSDB e o Podemos quanto o União Brasil e o Progressistas (PP) avançaram em negociações que visam ampliar sua relevância política, garantir acesso a recursos públicos e superar as exigências da cláusula de barreira.
Outrora grande força antagônica ao PT de Lula, o PSDB já já vinha flertando com a extinção desde o surgimento do Bolsonarismo. Após a saída de Doria do partido, esse movimento se acelerou. Embora sem a adesão de todos os quadros da legenda, o partido se engajou na busca de uma fusão como estratégia de sobrevida.
Nesta semana, a executiva nacional aprovou a proposta de fusão com o Podemos, que será levada à convenção nacional marcada para 5 de junho. Com o acordo, as legendas deixarão de existir separadamente, unificando estatutos, diretórios e CNPJs em uma única sigla. O novo partido reunirá 28 deputados federais, 7 senadores, 2 governadores e cerca de 400 prefeitos eleitos em 2024, incluindo duas capitais. A medida é estratégica para o PSDB, que enfrenta dificuldades para alcançar o piso exigido pela cláusula de barreira — mecanismo que limita o acesso de partidos nanicos ao fundo partidário e ao tempo de TV.
Com apenas 13 deputados espalhados por 8 estados, o PSDB corria o risco de perder financiamento público em 2026, caso não conseguisse ampliar sua base. Após conversas com outras siglas como MDB, PSD e Republicanos, a negociação com o Podemos, liderado pela deputada Renata Abreu (SP), foi a que prosperou.
Em paralelo, União Brasil e Progressistas oficializaram a criação da federação União Progressista, que será registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com validade a partir de 2026. Diferentemente da fusão, a federação permite que os partidos mantenham suas estruturas, mas atuem como uma só legenda por, no mínimo, quatro anos. A nova aliança contará com a maior bancada da Câmara, com 109 deputados federais, além de 14 senadores, seis governadores e quase 1,4 mil prefeitos — o maior número de prefeituras no país. A “superfederação” terá direito à maior fatia dos recursos públicos, com estimativa de R$ 953,8 milhões em fundo eleitoral e R$ 197,6 milhões em fundo partidário, tomando como base os números de 2024.
Nos primeiros meses, a federação será comandada de forma compartilhada entre Antonio de Rueda (União Brasil) e o senador Ciro Nogueira (PP). Internamente, ainda restam definições sobre a divisão de comando e o estatuto da aliança, que será discutido e aprovado em convenções partidárias.
Embora o foco atual esteja na formalização jurídica da federação, líderes da União Progressista já projetam protagonismo nas eleições de 2026. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), pré-candidato ao Planalto, discursou no lançamento da federação afirmando que o grupo “vai subir a rampa do Palácio do Planalto em 2027”.

Mudar para continuar os mesmos
Como qualquer pessoa com o mínimo de atenção à história dos partidos políticos no Brasil é capaz de intuir, essa reconfiguração partidária altera muito pouco, ou quase nada, a paisagem política brasileira. O fisiologismo e o interesse em orçamentos e viabilidades eleitorais são os norteadores de toda essa movimentação. O PT, embora refém do Lulismo, segue como o único partido com algum esqueleto ideológico.
O movimento de fusões e federações reflete o esforço de legendas em se adaptarem à cláusula de desempenho, consolidando forças para ampliar influência política, sem qualquer vestígio programático, garantir recursos e fortalecer a governabilidade. A tendência deve estimular novas articulações nos próximos meses, em um tabuleiro eleitoral cada vez mais concentrado.