Redação Culturize-se
A produção brasileira “Pssica” vem se firmando como um dos maiores fenômenos recentes da Netflix. Estreando diretamente no 2º lugar global da plataforma, a minissérie dirigida por Quico Meirelles, com episódio assinado por seu pai Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”), já acumula 8,8 milhões de visualizações e permanece há duas semanas no Top 3 de séries de língua não inglesa. O impacto internacional é expressivo: entrou no Top 10 geral em 68 países, do Canadá ao Marrocos, passando por México, França, Turquia e Argentina.
O feito coloca a produção no seleto grupo de obras brasileiras que romperam fronteiras. Até agora, apenas “DNA do Crime” e “Pedaço de Mim” haviam alcançado mais países. Para a indústria audiovisual nacional, trata-se de um marco que confirma a força das narrativas locais no cenário global.
Filmada em Belém (PA) e baseada no romance homônimo de Edyr Augusto, “Pssica” é um thriller denso, que mergulha nos rios e nas margens da Amazônia Atlântica. A trama acompanha três personagens cujas vidas se cruzam pela violência: Janalice (Domithila Catete), adolescente vítima do tráfico humano; Preá (Lucas Galvino), líder da gangue “ratos d’água”; e Mariangel (Marleyda Soto), mulher em busca de vingança após perder a família.
Mais que um pano de fundo, a “pssica” é também uma presença narrativa. No dialeto paraense, derivado do nheengatu, a palavra designa azar, maldição ou uma força negativa que persegue alguém. Na série, atua quase como um personagem, traduzindo o ciclo de dor que aprisiona os protagonistas.

A produção aposta na autenticidade cultural. Gravada integralmente no Pará, faz da luz equatorial e da paisagem amazônica elementos narrativos centrais, distantes da estética “enlatada” comum em outras séries. “Estamos praticamente debaixo da linha do Equador, isso dá uma diferença em iluminação e imprime a cara da região”, explica Edyr Augusto em entrevista ao jornal O Povo.
Com apenas quatro episódios de quase uma hora, a minissérie condensa violência, desejo e busca por justiça em ritmo intenso. Sua força está não só no enredo, mas no modo como coloca o espectador diante de uma realidade brutal: o tráfico de mulheres, ainda persistente no Brasil e em outros países latino-americanos.
Entre reconhecimento crítico e sucesso de público, “Pssica” inaugura uma nova fase do audiovisual brasileiro na Netflix — uma em que histórias locais, com raízes linguísticas, culturais e sociais profundas, conquistam atenção e relevância global.