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Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Redação Culturize-se

A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, instalada no Parque Ibirapuera, inaugura um novo capítulo na forma de apresentar e discutir o espaço construído no país. Aberta ao público no Pavilhão das Culturas Brasileiras, a mostra se propõe a deslocar a arquitetura de um campo estritamente técnico para um território mais amplo, cultural e sensorial. Com 28 pavilhões distribuídos em cerca de 20 mil metros quadrados, o evento parte de uma premissa clara: entender como o território brasileiro — marcado por seus seis biomas — molda não apenas a forma de construir, mas também os modos de habitar.

A escolha dos biomas como eixo curatorial estabelece uma leitura territorial da arquitetura. Em vez de soluções universais, os projetos apresentados respondem a condições específicas. No semiárido da Caatinga, por exemplo, predominam estratégias de adaptação ao calor e à escassez hídrica. No Pantanal, a elevação das estruturas revela uma convivência histórica com os ciclos de cheia. Já no Cerrado, o avanço urbano sobre áreas ambientalmente frágeis aparece como questão central, enquanto nos Pampas a horizontalidade das construções dialoga com a vastidão da paisagem.

Esse recorte reforça uma tendência observada na Bienal: a valorização de soluções contextuais e de uma arquitetura mais sensível às condições ambientais e culturais. O uso de materiais naturais, o foco no conforto térmico e a integração entre espaços indicam uma mudança no paradigma projetual, cada vez mais orientado à experiência cotidiana. Nesse sentido, a arquitetura deixa de ser apenas forma e função para incorporar dimensões sensoriais e simbólicas.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa abordagem é o pavilhão Casa Empate, que representa o Acre no eixo Amazônia. Concebido pela arquiteta Marlúcia Cândida com apoio de Marcelo Rosenbaum, o projeto reconstrói uma casa de seringueiros para narrar os “empates” — movimentos de resistência ao desmatamento liderados por comunidades locais nas décadas de 1970 e 1980, associados à figura de Chico Mendes. Mais do que uma reconstituição formal, o espaço funciona como dispositivo narrativo, articulando memória, cotidiano e política.

Objetos como cuias, tipitis e redes organizam o ambiente, enquanto elementos como a cozinha aberta e o uso de materiais naturais reafirmam a relação entre habitação e território. No centro do espaço, uma máquina de costura simboliza a autonomia feminina dentro dessas comunidades, evidenciando como arquitetura e vida social se entrelaçam. A proposta extrapola o campo da estética e se posiciona como um manifesto sobre permanência, transformação e identidade.

Apesar da ambição conceitual, a Bienal também revela uma tensão importante. Embora carregue o nome da disciplina, o evento não se configura como uma mostra de arquitetura no sentido tradicional. Em vez de projetos urbanos ou edifícios, predominam ambientes e interiores que traduzem modos de vida. Nesse contexto, o maior ícone arquitetônico presente é o próprio edifício que abriga a exposição, projetado por Oscar Niemeyer, cuja presença reforça o contraste entre arquitetura como objeto e como cenário.

Foto: Divulgação

Essa escolha, no entanto, não diminui o alcance da iniciativa. Ao privilegiar uma linguagem acessível e sensorial, a Bienal amplia o diálogo com o público e contribui para aproximar a arquitetura do cotidiano. A casa, nesse contexto, deixa de ser apenas um espaço funcional para assumir um papel simbólico, como extensão da identidade individual e coletiva. Cresce, assim, o interesse por projetos autorais, que valorizam histórias, hábitos e preferências, em oposição a soluções padronizadas.

Essa transformação também redefine a noção de luxo na arquitetura contemporânea. Mais do que ostentação, o valor passa a estar associado à qualidade de vida, ao conforto e à capacidade do espaço de refletir os valores de quem o habita. Funcionalidade e expressão estética deixam de ser opostas e passam a coexistir, consolidando uma abordagem mais integrada do projeto.

Ao reunir profissionais de diferentes regiões e promover a troca de referências, a Bienal se consolida como um espaço estratégico para o setor. Mais do que uma vitrine, o evento funciona como um laboratório de ideias, onde se articulam tendências, práticas e discursos que devem influenciar o futuro da arquitetura brasileira.

No fim, a Bienal de Arquitetura Brasileira, em cartaz até 30 de abril, propõe uma inflexão relevante: desloca o foco do objeto construído para a experiência de habitar. Ao fazer isso, sugere que a arquitetura, antes de ser técnica, é cultura; e que compreender o Brasil passa, necessariamente, por entender como seus territórios moldam a vida de quem os ocupa.

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