Redação Culturize-se
O brilho do Oscar e o prestígio conquistado em Cannes e Veneza pelos filmes “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” criaram uma percepção de que o cinema brasileiro atravessa um momento glorioso. Os números de 2025, porém, contam uma história bem diferente.
Das 203 produções nacionais lançadas nos cinemas brasileiros no ano passado, 163 não chegaram a 10 mil espectadores cada uma. Isso representa 80% de todos os filmes lançados no período. Pior: 111 deles — mais da metade do total — não alcançaram sequer mil ingressos vendidos em toda a sua carreira nas salas de cinema. Juntos, esses 111 filmes somaram apenas 33.736 espectadores, o equivalente a 0,3% do público total do cinema brasileiro em 2025.
O dado mais revelador, no entanto, é a mediana: quando os 203 filmes são ordenados por público, o ponto central do conjunto é de 719 espectadores. Ou seja, metade dos filmes brasileiros lançados em 2025 foi assistida, cada um, por menos de 719 pessoas. Um número que, por si só, esvazia qualquer narrativa otimista sobre a saúde do setor.
No total, os filmes brasileiros atraíram 11,9 milhões de espectadores em 2025 — mas 5,9 milhões desse público veio de produções lançadas em 2024, especialmente “Auto da Compadecida 2” (3,1 milhões) e “Ainda Estou Aqui” (2,8 milhões). As 203 obras efetivamente lançadas em 2025 somaram apenas 6 milhões de ingressos, representando cerca de 5,2% dos 115,7 milhões de espectadores que frequentaram os cinemas no período. A concentração é extrema: sete filmes responderam por 73% de todo o público do cinema nacional no ano.

A análise aponta o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) como corresponsável por esse cenário. O fundo investiu volumes significativos na produção dos filmes, viabilizando mais de 200 obras, mas negligenciou sistematicamente a fase de comercialização. Sem apoio adequado para lançamento, divulgação e distribuição, filmes que custaram anos de trabalho e recursos públicos chegaram às telas sem qualquer estrutura para conquistar o público.
A proposta que emerge da análise é direta: o FSA precisa se tornar sócio ativo da distribuição, assim como já o é da produção. Isso significa criar um programa robusto de apoio à comercialização, exigir planos de lançamento minimamente viáveis como condição de financiamento e investir em campanhas proporcionais ao potencial de cada obra. Com a digitalização das campanhas publicitárias e dos processos de copiagem, os custos de lançamento caíram — o que torna ainda menos justificável a ausência do fundo nessa etapa.
Os prêmios internacionais são reais, legítimos e merecem celebração. Mas “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” são exceções — e tratá-los como régua para medir o conjunto do cinema brasileiro é um equívoco que custa caro. Enquanto a política pública não encarar a distribuição com a mesma seriedade que trata a produção, centenas de filmes continuarão sendo feitos para não serem vistos.