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Em seu disco mais vulnerável, as irmãs Haim trocam o brilho pop por confissões ácidas

Redação Culturize-se

Todo mundo sabe que términos podem ser dolorosos — não apenas para o casal envolvido, mas para todos ao seu redor: família, amigos, animais de estimação, colaboradores. E às vezes esses términos não encerram apenas relacionamentos — eles provocam abalos em parcerias criativas inteiras. Essa ressaca emocional é o núcleo de “I Quit”, o quarto e mais introspectivo álbum do Haim até agora.

Para Danielle Haim, vocalista, guitarrista e principal compositora da banda, esse não foi um término qualquer. Sua separação do parceiro de longa data Ariel Rechtshaid — que co-produziu os três discos anteriores do Haim — deixou perguntas pessoais e profissionais no ar. Como a música da banda soaria sem ele? A mistura característica do grupo de pop-rock polido e R&B permaneceria intacta? E, talvez mais importante, como alguém reconstrói a própria identidade após o fim de um relacionamento duradouro?

Em “I Quit”, o Haim enfrenta essas questões com franqueza, humor e um toque ocasional de irreverência sonora. É um álbum que oscila entre catarse e confronto, alternando entre ironia mordaz e vulnerabilidade genuína. Também marca o primeiro lançamento do trio de Los Angeles — as irmãs Danielle, Este e Alana — em quatro anos, após o indicado ao Grammy “Women in Music Pt. III”, e mostra o grupo despindo camadas antigas de som para expor emoções mais cruas.

Saem os sintetizadores reluzentes e reverbs luxuosos que moldaram os trabalhos anteriores. “I Quit” aposta em algo mais cru, mais áspero, mais tátil. Essa mudança fica clara logo na faixa de abertura, “Gone”, em que a voz de Danielle atravessa uma batida lo-fi como quem narra do olho de um furacão. “Você pode me odiar pelo que sou / Pode me envergonhar pelo que fiz”, ela canta, antes de um sample de “Freedom! ’90”, de George Michael, invadir a faixa de forma desajeitada, mas ousada. É parte desafio, parte bagunça — o som de alguém tentando se manter firme enquanto ainda cambaleia.

Esse equilíbrio entre confiança e caos percorre todo “I Quit”. Tematicamente, é um álbum sobre ir embora — de relacionamentos, de expectativas externas e, às vezes, de si mesma. Até o título soa como uma provocação: Sair de quê, exatamente? Do romance? Da colaboração? De ser boazinha?

A capa do disco é assinada pelo colaborador delonga data do grupo, o cineasta Paul Thomas Anderson

Mas à medida que “I Quit” se desdobra, fica claro que o Haim não desistiu de nada essencial. A identidade musical construída pelo trio ao longo de uma década — um encontro elegante entre o rock de álbuns dos anos 1970, os ganchos pop dos anos 1980 e o R&B dos anos 1990 — continua intacta, ainda que um pouco desgastada. O que evoluiu foi a voz lírica. Onde músicas como “If I Could Change Your Mind” imploravam por compreensão, agora elas narram com olhar afiado as próprias histórias de fuga.

Essa mudança aparece com mais força no primeiro terço do álbum, onde as faixas pop têm mais impacto. “Relationships”, o single sarcástico, mira na absurda repetição dos ciclos amorosos. “Malditos relacionamentos / Não terminam sempre do mesmo jeito? / Quando não sobra mais ninguém para culpar?”, cospe Danielle, distorcendo rimas com humor exausto. É esperta, ácida, mas também curiosamente estática — gira em torno da própria premissa sem alcançar o êxtase pop de faixas como “The Wire” ou “Want You Back”.

“All Over Me” se sai melhor. Sobre camadas de guitarra com levada country e discretos licks de sitar, Danielle celebra o sexo casual com um entusiasmo raro em discos de término mainstream. É engraçada, inteligente e viva com a imprevisibilidade sonora que sempre foi uma marca registrada do Haim.

Ainda assim, “I Quit” não é só ironia e aventuras. Seus momentos mais fortes são justamente os mais quietos e estranhos. “Take Me Back” soa como um monólogo nostálgico disparado rapidamente sobre um violão dedilhado. É um aceno irônico à juventude millennial: parte ‘Jovens, Loucos e Rebeldes“, parte Beck na fase “Mellow Gold”, com a dose certa de absurdo autoconfiante que permite ao Haim rimar notas baixas na escola com disfunção erétil. “Lucky Stars”, por sua vez, mergulha em um shoegaze enevoado, trocando o imediatismo pop por uma dissociação onírica.

Para os fãs antigos, talvez a maior novidade seja o maior equilíbrio nos vocais entre as irmãs. Alana assume os vocais principais pela primeira vez em “Spinning”, uma faixa disco elegante, enquanto Este brilha na balada synth-country “Cry”, trazendo uma vulnerabilidade inesperada. São dois momentos reveladores que confirmam o que os fãs sempre suspeitaram: o potencial criativo do Haim vai muito além das fórmulas do pop tradicional.

Se “Women in Music Pt. III” era sobre expansão e experimentação, “I Quit” parece uma retração — menor, mais enxuto, mais íntimo. As irmãs não parecem preocupadas com hits para rádio ou algoritmos. Mesmo nas faixas mais pop, a produção parece propositalmente desenhada para resistir ao prazer imediato, como um sorriso dado de dentes cerrados.

Essa resistência criativa é admirável, mas também irregular. Com frequência, “I Quit” retorna aos temas do término sem trazer novas perspectivas. Canções como “Love You Right”, “Million Years”, “Try to Feel My Pain” e a faixa final “Now It’s Time” escorregam para um território quase de sessão de terapia, com confissões diretas demais, beirando diários musicados. Não que álbuns sobre términos não possam mergulhar na dor — muitos dos melhores discos pop fazem isso —, mas “I Quit” às vezes esquece a importância da variedade emocional, da surpresa, das reviravoltas de perspectiva.

Fotos: Divulgação

Mas quando o Haim acerta esse equilíbrio, brilha. “Down to Be Wrong” talvez seja o centro emocional do álbum, um hino luminoso sobre separação que alterna versos contidos e refrões grandiosos em saltos de oitava. Danielle canta: “Dessa vez, não vou mudar de ideia”, enquanto harmonias se sobrepõem, elevando a música a uma transcendência agridoce. É o som de um ponto final emocional, mas com plena consciência de que nenhum fim é realmente limpo ou satisfatório.

Outro destaque é “Everybody’s Trying to Figure Me Out”, que começa com aquele groove familiar do Haim e aos poucos se dissolve em algo mais etéreo e estranho. “Você acha que vai morrer, mas não vai morrer”, repete Danielle como um mantra, acompanhada por baterias explosivas e sintetizadores distorcidos. É reconfortante e brutal ao mesmo tempo — um reflexo de como a cura realmente funciona: confusa, incompleta e, por vezes, estranhamente engraçada.

Com todos os seus defeitos, “I Quit” é um álbum necessário para o Haim. Não entrega a gratificação instantânea dos trabalhos anteriores, nem tenta. Em vez disso, captura a sensação de desmoronar e, aos poucos, juntar os pedaços de si — talvez não de forma arrumada, mas de forma honesta.

Términos são difíceis para todos, mas “I Quit” é a prova de que o elo entre essas três irmãs continua inabalável, mesmo enquanto desmontam antigas versões de si mesmas em busca de algo mais livre, mais estranho e, acima de tudo, só delas.

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