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Trend do Studio Ghibli deflagra debate sobre ética na arte

Redação Culturize-se

Nas últimas semanas, as redes sociais foram inundadas por uma enxurrada de imagens que transformam fotos comuns em cenas que parecem saídas dos filmes do Studio Ghibli. A ferramenta, lançada pela OpenAI no ChatGPT, permite que qualquer pessoa recrie suas selfies ou paisagens no estilo do estúdio japonês — e o resultado foi viral instantâneo. Em apenas uma hora após o lançamento, o ChatGPT ganhou 1 milhão de novos usuários, segundo Sam Altman, CEO da OpenAI.

Mas por trás da diversão aparentemente inofensiva, há uma guerra silenciosa sobre direitos autorais, ética na arte e o futuro da criatividade.

Hayao Miyazaki, o lendário diretor por trás de obras como “A Viagem de Chihiro” e “Princesa Mononoke”, nunca escondeu seu desprezo pela inteligência artificial. Em 2016, ao assistir a uma demonstração de animação gerada por IA, ele declarou: “Isso é um insulto à vida em si.” Agora, ironicamente, sua estética meticulosa — fruto de décadas de trabalho manual — está sendo replicada em massa por algoritmos treinados em suas criações, sem sua permissão ou qualquer compensação.

A OpenAI justifica a decisão afirmando que bloqueia a imitação de artistas individuais vivos, mas permite estilos de estúdios mais amplos, como o Ghibli. “Queremos dar liberdade criativa aos fãs”, diz a empresa. Mas será que essa liberdade inclui o direito de diluir a identidade visual única de um dos maiores cineastas da história em filtros descartáveis?

Lula e Bolsonaro também aderiram à trend | Foto: Reprodução/X

Hollywood reage (mas não o suficiente)

Enquanto usuários comuns celebram suas fotos “ghiblizadas”, a indústria criativa levanta críticas. Alex Hirsch, criador de Gravity Falls, ironizou Altman no X: “Parabéns por usar o trabalho do Ghibli para treinar seu modelo e o nome do Ghibli para promovê-lo! E o fato de você não pagar royalties só prova que é um grande cara!” Já a GKIDS, distribuidora dos filmes do Ghibli nos EUA, aproveitou o momento para relançar “Princesa Mononoke” em IMAX, destacando a importância do cinema feito à mão.

Mas, no fim, poucos estúdios estão dispostos a enfrentar a OpenAI legalmente. A Lionsgate e a Dotdash Meredith já fecharam acordos para licenciar seu conteúdo — este último por apenas US$ 16 milhões, valor irrisório para uma empresa que fatura meio bilhão por ano. A mensagem é clara: é mais lucrativo se render do que lutar.

O futuro da arte: personalização em massa ou esvaziamento criativo?

A febre GhibliAI não é um fenômeno isolado. Ela reflete uma tendência maior: a transformação da arte em commodity digital. Se antes o cinema era sobre explorar mundos imaginários, agora as plataformas de IA permitem que qualquer um se insira neles — não como espectador, mas como protagonista.

O problema é que, ao reduzir o estilo de Miyazaki a um filtro, perdemos justamente o que o torna especial: a humanidade por trás de cada traço. Suas histórias não são apenas belas imagens, mas reflexões profundas sobre ecologia, guerra e crescimento pessoal. E quando a OpenAI (e seus usuários) transformam seu legado em pano de fundo para selfies, essa profundidade some.

Em “A Viagem de Chihiro”, a protagonista é alertada: “Não esqueça seu nome, ou você deixará de existir.” A fala poderia ser um alerta para nossa era. À medida que a IA recria, remixa e comercializa estilos artísticos sem consentimento, o que resta da identidade original?

Miyazaki e o Ghibli ainda não se pronunciaram sobre a polêmica. Mas, diante de uma indústria que parece cada vez mais disposta a vender seu passado para alimentar o presente, talvez a pergunta mais urgente seja: quem vai se lembrar do que realmente importa quando a magia virar apenas mais um produto?

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