Redação Culturize-se
Com uma linguagem concisa, sensível e afiada, a poeta curitibana Alice Ruiz conquistou um espaço singular na literatura brasileira contemporânea. Seus poemas – ora haicais, ora breves epifanias líricas – circulam como mantras nas redes sociais, ganham forma em canções populares e até viram tatuagens, tal é a força de sua síntese poética.
Nascida em Curitiba, em 1946, Alice Ruiz construiu uma trajetória marcada pela experimentação e pela delicadeza. Começou a escrever ainda jovem, mas só publicou seu primeiro livro aos 34 anos. Desde então, reuniu mais de vinte títulos, entre poesia, traduções e literatura infantojuvenil. O reconhecimento como uma das vozes mais originais da poesia nacional veio não apenas pela beleza de seus versos, mas por sua capacidade de reinventar uma forma milenar: o haicai.
Inspirada pela tradição japonesa, Alice foi uma das grandes responsáveis por popularizar o haicai no Brasil. Essa forma poética, que exige precisão e economia – três versos com métrica de 5-7-5 sílabas –, encontrou nela uma intérprete ousada e moderna. Ao lado de Paulo Leminski, seu companheiro de vida e também poeta, a autora moldou um estilo próprio, em que o haicai não era apenas uma técnica, mas uma filosofia de olhar para o mundo.
Mas, ao contrário dos haicais tradicionais, focados quase exclusivamente na natureza, os haicais de Alice abordam o cotidiano urbano, o amor, o humor e as pequenas iluminações do dia a dia. Livros como “Vice-versos” (1980), “Pelos Pés” (1983), “Dois em Um” (1998) e “Haicais” (2004) demonstram sua habilidade de capturar grandes emoções em mínimos gestos. Um dos mais famosos é:
no fim da tarde
o cheiro do seu cabelo
ainda nas mãos
Simples, mas repleto de sensações – uma das marcas de sua escrita.
Com o tempo, sua obra se expandiu para outras linguagens. Suas parcerias musicais renderam canções com artistas como Itamar Assumpção, Alzira Espíndola, Zélia Duncan, Zeca Baleiro e Arnaldo Antunes. A musicalidade natural de seus poemas favorece esse trânsito entre literatura e música. Alice também atuou como letrista e tradutora, vertendo para o português a poesia japonesa e textos ligados ao zen-budismo – outra influência que perpassa seu trabalho.

Seus versos encontram hoje um novo público nas redes sociais, onde são compartilhados como pequenos tesouros. Em uma era saturada de informação, sua poesia oferece respiro. Em vez de ruído, silêncio. Em vez de excesso, o essencial. É por isso que poemas escritos há décadas ainda reverberam com tanta força.
Além do formato breve, os temas explorados por Alice Ruiz também explicam sua atemporalidade. Amor, perda, autoconhecimento, solidão e a beleza escondida nas coisas simples atravessam gerações. Sua escrita afeta porque fala com quem somos e com quem queremos ser.
Em um cenário literário que ainda valoriza, muitas vezes, o rebuscado e o grandioso, Alice Ruiz lembra que menos é mais. E que, sim, três linhas podem ser suficientes para abrir um universo inteiro dentro de nós. Ler Alice hoje é um convite à pausa, à escuta e ao encantamento – algo cada vez mais necessário.