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Entre riscos e repetições, Sheeran se reinventa pela metade em “Play”

Redação Culturize-se

Ed Sheeran chega a “Play”, seu oitavo álbum de estúdio, carregando um peso e uma necessidade de reafirmação. Após a recepção morna de “Subtract” e “Autumn Variations” — discos marcados pelo luto, pela perda e pela quase morte de sua esposa, Cherry —, um dos artistas mais comercialmente confiáveis de sua geração se viu em terreno instável. Os dois últimos trabalhos funcionaram mais como diários íntimos do que como potências pop, e o público respondeu com indiferença. Para quem já vendeu 8,4 milhões de cópias de “÷” apenas no Reino Unido, essa reação foi um golpe duro.

“Play” se apresenta como um renascimento, um retorno às cores depois da escuridão. O próprio Sheeran descreveu o álbum como “uma resposta direta ao período mais sombrio da minha vida”, concebido para irradiar alegria e experimentar culturas que encontrou durante suas turnês. As expectativas eram altas: os singles de pré-lançamento “Azizam” e “Sapphire” apontavam para influências persas e punjabi, sendo o segundo em parceria com o astro indiano Arijit Singh, sugerindo um Sheeran mais ousado e plural.

O início, no entanto, soa familiar demais. “Opening” retoma o formato de balada intimista, com violão dedilhado, prestes a arrastar o ouvinte de volta ao terreno melancólico. A diferença está nas letras mais cruas: “Chorei no túmulo do meu irmão / Apertei a mão do cirurgião da minha esposa”. O peso pessoal dá força à faixa, que ganha fôlego quando desliza para um beat seco e até um rap de desabafo sobre os processos de plágio que enfrentou.

O disco tenta se expandir em outras direções: há soul luminoso (“A Little More”, “The Vow”), folktronica à la Bon Iver (“Heaven”) e até uma inesperada parceria de psytrance com Fred Again em “Don’t Look Down”, que combina flauta bansuri com batidas trance em uma catarse de dor e libertação. É um dos momentos mais fortes da carreira de Sheeran, ousado e futurista, e poderia ter servido de bússola para todo o projeto.

Foto: Divulgação

Mas a promessa de diversidade muitas vezes se dissolve no molde do pop seguro. “Azizam”, apesar da santur persa, esconde-se atrás de uma progressão de acordes já usada à exaustão. “Sapphire” funciona melhor, sobretudo pela força magnética de Arijit Singh e pelo ineditismo de Sheeran cantar em hindi e punjabi — um feito que levou a música ao topo das paradas de streaming na Índia, feito inédito para um artista ocidental desde 2021. Ainda assim, a produção suaviza as arestas e retira parte da singularidade que poderia diferenciá-la.

A tensão de “Play” está nesse equilíbrio frágil entre o desejo de explorar novas influências e a necessidade de manter um som amplo, ajustado às playlists globais. Sua recente turnê na Índia, que incluiu partidas de futebol em Shillong, aulas de sitar em Mumbai e até um show improvisado em Bengaluru interrompido pela polícia, sugeria uma vivência cultural mais profunda do que o que se ouve no disco. Onde nomes como George Harrison ou Shakira fundiram tradição e pop em gestos radicais, Sheeran prefere a assimilação polida.

Ainda assim, não se trata de um álbum vazio. Faixas como “Old Phone”, inspirada em uma mensagem antiga de Jamal Edwards, têm peso emocional. Até os momentos mais leves carregam um sopro de recuperação, de quem tenta reencontrar a cor após o trauma. “Play” não é uma reinvenção nem uma obra-prima, mas funciona como um trabalho de transição: o som de um artista tentando emergir da escuridão, arriscando novas matizes, ainda que preso a velhos padrões. Seus pontos altos — “Sapphire”, “Don’t Look Down”, “Old Phone” — apontam caminhos para um Sheeran mais ousado e imprevisível.

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