Redação Culturize-se
“Pillion”, de Harry Lighton, começa com um encontro carregado de tensão e ternura quase absurda: em um abafado pub inglês, Colin — um jovem tímido que canta em um quarteto de barbearia ao lado do pai e dos irmãos — é silenciosamente observado por Ray, um imponente motociclista envolto em couro. Um horário e um local são rabiscados em um cartão natalino. Na noite de Natal, Colin está de joelhos em um beco atrás de uma Primark, atordoado, grato e recém-desperto. A partir desse encontro improvável, “Pillion” constrói um retrato discretamente radical do BDSM — em forte contraste com o espetáculo lustroso de “Cinquenta Tons de Cinza”.
Colin (Harry Melling) vem de uma família operária quase improvavelmente amorosa. Sua mãe, Peggy (Lesley Sharp), mesmo lutando contra o câncer, comparece às suas apresentações e o incentiva ao romance com otimismo incansável. Não há repressão aqui, nem grande trauma empurrando-o para a clandestinidade. Seu desejo nasce não da vergonha, mas da curiosidade. Quando Ray (Alexander Skarsgård) entra em sua vida — imponente, lacônico, impecável em couro branco — ele é menos um corruptor e mais um catalisador.
Ray encarna a fantasia da dominância: alto, fisicamente marcante, emocionalmente contido. Ainda assim, “Pillion” se recusa a mitificá-lo. O arranjo que se estabelece entre eles é simples. Colin cozinha. Colin limpa. Colin dorme no chão. Ray deixa tarefas ao lado da cama. Não há masmorra ornamentada, nem arsenal de brinquedos espelhados. A troca de poder vive no ritual e na repetição. Para Colin, a submissão torna-se menos sobre dor e mais sobre foco — um estreitamento do mundo à clareza da instrução. Ao servir, ele experimenta uma espécie de silêncio mental.

É nesse ponto que “Pillion” mais se distancia de “Cinquenta Tons de Cinza”. Na adaptação de Sam Taylor-Johnson, o BDSM é inseparável do espetáculo e da riqueza. O “quarto vermelho” de Christian Grey é um showroom de excessos — chicotes alinhados em triplicata, amarras de seda, ferragens reluzentes — uma estética de fetiche comprável. A fantasia não é apenas erótica, mas capitalista: luxo como libertação. A ambivalência de Anastasia Steele diante da submissão é tratada como tensão romântica, e o desejo de Christian é apresentado como uma ferida a ser diagnosticada e talvez curada.
Em “Pillion”, não há patologia a resolver nem fortuna sustentando a fantasia. Colin não se sente repelido pela dominância de Ray; ele se sente eletrizado. A dinâmica não é explicada nem defendida em termos didáticos. Lighton evita a superexposição, permitindo que o público aprenda as regras à medida que Colin aprende. Quando ele é instruído a dormir no chão, compartilhamos sua desorientação. Quando mais tarde troca impressões com outros submissos na comunidade de motociclistas de Ray, o filme oferece contexto sem se transformar em manual.
Crucialmente, “Pillion” entende a submissão como agência, não como capitulação. Colin escolhe o arranjo. A coleira que eventualmente recebe carrega peso simbólico não por seu valor material, mas por marcar uma vulnerabilidade escolhida. Em contraste, “Cinquenta Tons de Cinza” frequentemente enquadra a dominância como algo que precisa ser justificado por um passado problemático — as “cinquenta nuances” de trauma de Christian. O BDSM torna-se sintoma ou espetáculo, raramente prática legítima em si mesma.

A atuação de Skarsgård se beneficia dessa contenção. Seu Ray é intimidador, mas capaz de breves lampejos de suavidade. Melling interpreta Colin com sinceridade aberta, sem cair na caricatura. Seu entusiasmado “Obrigado!” após o primeiro encontro captura o equilíbrio tonal do filme: erótico, engraçado e profundamente humano.
Ainda assim, “Pillion” não romantiza a incompatibilidade. O arranjo funciona sexualmente, mas tropeça emocionalmente. Colin descobre que, embora ame servir, também deseja ser amado. Quando pede a Ray um dia por semana fora da dinâmica, o pedido revela os limites da arquitetura emocional de Ray. Sua dominância pode ser precisa, talvez protetora; mas talvez não comporte a vulnerabilidade mútua.
A relação se rompe — e essa ruptura não é tratada como fracasso, mas como aprendizado. “Pillion” sugere que alguns relacionamentos existem para revelar nossos contornos. Colin emerge de coração partido, mas mais consciente de suas necessidades. Ele não pode permanecer eternamente na garupa — agarrado à direção de outro. O título torna-se metáfora: a emoção é real no banco do passageiro, mas o autoconhecimento exige, em algum momento, assumir o guidão.
Se “Cinquenta Tons de Cinza” tornou o BDSM palatável ao grande público por meio do excesso e do melodrama, “Pillion” o apresenta como íntimo, cotidiano e emocionalmente complexo. Propõe que a troca de poder pode ser libertadora sem ser redentora, erótica sem ser ornamental. E, sobretudo, afirma que o desejo não precisa ser justificado para ser legítimo. Nessa confiança silenciosa, “Pillion” soa menos como fantasia e mais como verdade vivida.