Redação Culturize-se
Entre os dias 6 e 11 de maio, a CAIXA Cultural São Paulo apresenta uma nova encenação de “A Falecida”, clássico de Nelson Rodrigues, sob a direção de Sérgio Módena e protagonizada por Camila Morgado. A peça, escrita originalmente em 1953, revisita com ironia e brutalidade os anseios da classe média suburbana carioca, revelando as contradições da alma humana — um tema universal que atravessa décadas.
No centro da trama está Zulmira, personagem interpretada por Morgado. Portadora de tuberculose e moradora de um subúrbio do Rio de Janeiro, Zulmira nutre o desejo obsessivo de ter um funeral luxuoso. Seu plano é usar a própria morte como instrumento de revanche e ostentação para causar inveja em sua prima e rival Glorinha. A peça expõe, com a crueza típica de Nelson Rodrigues, a vaidade e o vazio das relações familiares envoltas em hipocrisia e competição.
A nova montagem propõe uma abordagem estética atemporal. O cenário, concebido como um grande mausoléu, funciona como símbolo da ostentação social. Figurinos e trilha sonora também fogem de uma reprodução fiel da década de 1950, optando por elementos que evocam tempos diversos. Segundo Sérgio Módena, essa escolha sublinha a atemporalidade dos temas rodrigueanos: “Nelson radiografa a miséria da alma humana, presente nos mais diversos lugares e épocas”, afirma o diretor, que faz sua estreia em montagens de textos de Nelson Rodrigues.
Ao longo das décadas, “A Falecida” teve várias interpretações memoráveis. A montagem original de 1953 foi dirigida por Ziembinski e estrelada por Cacilda Becker, marcando um momento emblemático na dramaturgia brasileira. Em 1965, a obra ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Leon Hirszman, com Fernanda Montenegro no papel principal, o que ampliou ainda mais o alcance do texto. Nos palcos, outras atrizes como Rosamaria Murtinho e Marília Pêra também se debruçaram sobre a complexidade de Zulmira, reafirmando a peça como um dos textos mais contundentes de Nelson.

Camila Morgado, protagonista desta nova versão, traz uma bagagem robusta de trabalhos no teatro, que a consolidaram como uma intérprete sensível e intensa. Embora conhecida do grande público por papéis marcantes na televisão — como a Manuela de “A Casa das Sete Mulheres” (2003) e a Olga Benário do filme “Olga” (2004) — é nos palcos que Morgado mostra a extensão de seu talento dramático. Sua trajetória inclui montagens elogiadas como “Igual a Você” (2015), “O Quarto de Giovanni” (2017) e “Relâmpago Cifrado” (2022), nas quais demonstrou apuro técnico e profundidade emocional.
A parceria entre Morgado e Sérgio Módena não é inédita; ambos já dividiram o palco e a concepção de projetos anteriores, marcados pela afinidade estética e rigor dramatúrgico. “Ela é uma atriz rodrigueana por excelência”, ressalta Módena, destacando a capacidade da atriz de transitar entre o sagrado e o profano, a delicadeza e a sordidez — elementos essenciais para dar vida a Zulmira.
Com entrada gratuita e um elenco de peso, que conta também com Thelmo Fernandes, Stela Freitas e Claudio Gabriel, a nova montagem de “A Falecida” reafirma a relevância do teatro de Nelson Rodrigues e o vigor da cena contemporânea brasileira, ao mesmo tempo em que celebra a maturidade artística de Camila Morgado, uma das intérpretes mais sólidas de sua geração.