Reinaldo Glioche
Aos 87 anos, o cineasta holandês Paul Verhoeven está planejando o que pode ser o filme mais ousado de sua carreira lendária. Intitulado “Young Sinner”, o projeto, que há anos circula nos bastidores, ressurgiu com nova urgência. Verhoeven, conhecido por clássicos como “Instinto Selvagem”, “RoboCop” e “Benedetta”, revelou estar próximo de concluir o roteiro ao lado do colaborador de longa data Ed Neumeier (“Tropas Estelares”, “RoboCop”).
Em entrevistas ao Libération e à Radio France, Verhoeven confirmou que “Young Sinner” é “uma história original” ambientada em Washington, D.C., centrada em uma jovem evangélica que concilia devoção religiosa com uma intensa vida sexual. “Ela acredita em Jesus”, disse ele sem rodeios, “e ela realmente gosta de sexo.” O filme é descrito como um thriller erótico político – o primeiro de Verhoeven no gênero de espionagem – com elementos de sátira, intriga e geopolítica.
Uma breve sinopse fornecida por Neumeier apresenta a protagonista como uma assessora do Senado que se vê envolvida em um escândalo político e em operações secretas de inteligência. O roteiro tem ainda a consultoria de Ron Mark, ex-oficial de inteligência, e promete ser, nas palavras do diretor, uma experiência mais “mente aberta” e “explosiva” do que seu thriller de guerra “A Espiã” (2006).
Apesar do entusiasmo, Verhoeven não tem ilusões sobre a viabilidade do projeto. “Não há garantia de que o filme vá acontecer”, admitiu. Os temas abertamente provocativos – sexuais e políticos – têm dificultado o financiamento, especialmente no atual cenário conservador da indústria cinematográfica. Um projeto paralelo em francês, “Sans Compter”, foi recentemente cancelado por divergências criativas, o que reforça a fragilidade de sua posição atual: é “Young Sinner” ou nada.

A situação de Verhoeven reflete a de outros autores como Brian De Palma, que também enfrentam dificuldades para viabilizar thrillers adultos e subversivos em uma indústria dominada por franquias seguras. O último filme 100% americano de Verhoeven foi “O Homem Sem Sombra” (Hollow Man, 2000). Um retorno aos EUA agora teria peso simbólico – um possível ponto final à sua trajetória hollywoodiana.
Se “Young Sinner” for realizado, pode muito bem ser seu canto do cisne: uma meditação destemida e sem concessões sobre fé, poder e desejo. Resta saber se algum estúdio terá coragem de bancar o risco. Mas, se existe alguém capaz de abalar o cinema aos 90 anos, esse alguém é Paul Verhoeven.