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Parassocialidade, comunicação e a reinvenção do laço social

Redação Culturize-se

As relações parassociais nasceram como conceito acadêmico na década de 1950, formuladas para descrever o vínculo unidirecional que espectadores estabeleciam com apresentadores de rádio e televisão. Eram laços sem reciprocidade efetiva, mas carregados de afeto, familiaridade e sensação de intimidade. O que parecia um fenômeno marginal da cultura de massas tornou-se, ao longo das décadas, um eixo central da vida social mediada. Não por acaso, “parassocial” foi alçada à condição de palavra do ano. Ela nomeia, com precisão inquietante, a gramática emocional de um tempo em que a comunicação organiza vínculos, expectativas e identidades.

Do ponto de vista sociológico, as relações parassociais revelam a reorganização do laço social sob a lógica da mediação contínua. Se, no passado, a intimidade dependia da copresença e do reconhecimento mútuo, hoje ela pode ser simulada por fluxos constantes de imagens, narrativas pessoais e performances de autenticidade. Influenciadores, artistas, streamers e até marcas constroem uma presença cotidiana que se infiltra na vida privada do público. O sujeito não apenas consome conteúdos; ele acompanha rotinas, compartilha emoções, projeta expectativas. A assimetria persiste, mas a sensação de proximidade se intensifica.

Há, porém, uma dimensão memorial nesse processo. As relações parassociais funcionam como reminiscências comunicacionais: arquivos afetivos formados por vozes, rostos e gestos reiterados ao longo do tempo. Cada postagem, cada vídeo, cada “story” adiciona uma camada a esse acervo íntimo, que o público acessa como quem revisita lembranças pessoais. O passado compartilhado — ainda que unilateral — cria a ilusão de história comum. A comunicação, aqui, não informa apenas; ela sedimenta memória e produz continuidade.

A escolha do termo como palavra do ano indica um deslocamento importante: aquilo que antes era analisado como exceção passou a ser reconhecido como norma cultural. As plataformas digitais radicalizaram o fenômeno ao introduzir interatividade mínima (curtidas, comentários, respostas pontuais) suficiente para reforçar a crença na reciprocidade. Não se trata de engano ingênuo, mas de uma adaptação racional a um ecossistema em que a visibilidade é moeda e a atenção, capital. A parassocialidade torna-se, assim, uma estratégia de pertencimento em sociedades marcadas por fragmentação, solidão urbana e precarização dos vínculos tradicionais.

Foto: Reprodução/Internet

Do ponto de vista comunicacional, essas relações expõem uma ambiguidade central. Elas podem oferecer conforto, identificação e até aprendizado; ao mesmo tempo, deslocam expectativas de intimidade para espaços governados por métricas, algoritmos e interesses comerciais. O afeto circula, mas é mensurado. A confiança se constrói, mas pode ser monetizada. O sujeito se sente visto, mesmo quando é apenas contabilizado.

Ao nomear esse fenômeno, a palavra do ano convoca uma reflexão crítica sobre os limites entre público e privado, proximidade e performance, vínculo e consumo. As relações parassociais não são um desvio da sociabilidade moderna, mas um espelho de suas condições. Elas nos lembram que, na era da comunicação permanente, lembrar, sentir e pertencer tornaram-se experiências profundamente mediadas e, justamente por isso, politicamente relevantes.

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