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Paramount prepara oferta hostil pela Warner para impedir fusão do estúdio com a Netflix

Reinaldo Glioche

A revelação recente de que Netflix e Paramount avaliaram a possibilidade de adquirir a Warner Bros. (WBD) não caiu como surpresa total em Hollywood, mas causou um abalo imediato entre executivos, investidores e criadores. Um dos maiores estúdios do mundo, dono de franquias como Batman, Harry Potter e Looney Tunes, a Warner se tornou — ironicamente — um dos ativos mais monitorados por Wall Street, especialmente após a turbulenta fusão entre WarnerMedia e Discovery e o comando controverso de David Zaslav. Agora, a simples ideia de uma venda reacende temores profundos: concentração ainda maior no mercado de conteúdo, descaracterização histórica do estúdio e impactos imprevisíveis para o cinema em escala global.

O interesse, confirmado por fontes próximas às duas empresas, delineia duas estratégias opostas. Para a Netflix, comprar a Warner significaria consolidar uma posição que já conquistou no streaming, mas ainda persegue no cinema: o controle de propriedades intelectuais icônicas e um poder de fogo inigualável em franquias. Para a Paramount, seria um movimento mais defensivo — resgatar relevância e competitividade em meio às negociações estremecidas com a Skydance e à perda gradual de espaço no mercado.

Netflix e Warner anunciaram na sexta-feira (5) a compra da segunda pela primeira em um negócio de US$ 82 bilhões.

A Paramount abriu nesta segunda-feira (8) uma ofensiva direta aos acionistas da WBD ao lançar uma oferta pública de aquisição totalmente em dinheiro, no valor de US$ 30 por ação. A proposta, que avalia a companhia em US$ 108,4 bilhões, busca reverter o acordo firmado entre WBD e Netflix e recolocar a Paramount no centro da disputa pelo estúdio.

Foto: AFP

Segundo a Paramount, sua oferta entrega US$ 18 bilhões a mais em dinheiro aos acionistas do que a proposta da Netflix, considerada pelo conselho da WBD. A empresa acusa o rival de basear sua avaliação em projeções “ilusórias” do segmento Global Networks, que a Paramount também pretende absorver — ao contrário da Netflix, cujo acordo envolve apenas o estúdio e o streaming, após o desmembramento dos canais lineares previsto para 2026.

A iniciativa tem forte caráter hostil e surge após 12 semanas de tentativas fracassadas de negociação privada e leva o debate diretamente ao público investidor. Para o CEO David Ellison, o conselho da WBD está privilegiando uma proposta “inferior e incerta”, já que o acordo com a Netflix combina dinheiro e ações e enfrentará longos trâmites regulatórios internacionais.

A Paramount afirma contar com financiamento robusto, incluindo apoio da família Ellison, do fundo RedBird Capital e de compromissos de US$ 54 bilhões de grandes bancos. A empresa argumenta que sua aquisição ampliaria a concorrência e fortaleceria o ecossistema criativo, aumentando produção e oferta de títulos nos cinemas — em contraste com a política de janelas reduzidas da Netflix, criticada por exibidores e sindicatos.

Já a Netflix deve defender-se alegando que integra um mercado mais amplo, onde compete com gigantes como YouTube. O cenário político também pesa: tanto Ellison quanto Ted Sarandos buscaram apoio de Donald Trump, que elogiou o executivo da Netflix, mas expressou preocupação com a concentração de mercado caso o acordo seja concluído.

As implicações dessa movimentação vão além do jogo corporativo. Há um impacto direto e simbólico para o ecossistema criativo. A Warner foi, por décadas, uma “casa de diretores”. Clint Eastwood, Christopher Nolan, Todd Phillips e Denis Villeneuve são apenas alguns dos nomes que mantiveram ali seus projetos mais ambiciosos. O desgaste recente — incluindo a decisão de extinguir filmes prontos, a exemplo de “Batgirl”, para fins fiscais — abalou profundamente a relação com talentos, que passaram a enxergar o estúdio como imprevisível. O fantasma de uma nova venda, agora para players cuja lógica é inteiramente distinta da cultura de estúdio, alimenta ainda mais esse receio.

No caso da Netflix, por exemplo, a plataforma opera em ritmo acelerado e com um sistema de avaliação por performance interna. A pergunta recorrente entre produtores é: o que aconteceria com um universo cinematográfico como o da DC sendo administrado por uma empresa que cancela projetos menos de 28 dias após a estreia? A dúvida não é trivial. Uma aquisição desse porte exigiria um ajuste brutal na arquitetura interna do streaming, que sempre evitou lidar com franquias de longa duração ou calendários estruturais como os da Marvel ou da própria DC.

Para a Paramount, o problema seria outro: integrar dois estúdios tradicionais com gargalos de caixa. Ainda que a empresa detenha um legado forte — Missão Impossível, Star Trek, Bob Esponja —, está longe de ter a estabilidade necessária para absorver a Warner sem profunda reestruturação. Na prática, seria uma fusão de fragilidades, com risco real de enxugamento agressivo de equipes, catálogos e unidades produtivas.

Hoje, o mercado já é controlado por cinco grandes conglomerados. A saída da Warner desse grupo — seja para o streaming dominante ou para uma rival em crise — desequilibraria o setor. Criaria uma “super-Netflix” ou uma “Paramount turboalimentada”, ambas cenários de concentração extrema. O impacto seria sentido em salas de exibição, negociações de janelas, distribuição internacional e, sobretudo, na competição por talentos e produções de médio orçamento, que já sofrem as consequências da verticalização das plataformas.

A disputa pelo controle da Warner também se relaciona com um tema central: a crise de identidade da companhia. Desde a fusão com a Discovery, a empresa tenta conciliar realidades praticamente opostas — o entretenimento popular da TV a cabo com a lógica de franquias de cinema e os mecanismos de streaming. O resultado até aqui é um híbrido arriscado, sem clareza operacional.

Nesse contexto, o interesse externo funciona quase como uma espécie de diagnóstico involuntário. Netflix e Paramount olham para a Warner e veem algo que, apesar do caos interno, continua valioso: propriedade intelectual. Em Hollywood, IP é petróleo — e a Warner senta sobre um dos maiores reservatórios do planeta. De Game of Thrones a Matrix, de O Senhor dos Anéis aos clássicos de animação, o catálogo fala mais alto que a instabilidade corporativa.

O que permanece como dúvida é o que acontecerá daqui para frente. A recente sucessão de acontecimentos deixa claro que a Warner está no centro de um mapa geopolítico da mídia global. A corrida pelo controle de Hollywood segue aberta. E a Warner, com sua história centenária, pode ser o próximo teste definitivo para saber se a indústria ainda se sustenta como um campo criativo — ou se já se rendeu, por completo, à lógica dos mercados financeiros.

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