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Oscar se torna cada vez mais concentrado em menos filmes

Reinaldo Glioche

A edição deste ano do Oscar produziu uma anomalia estatística que também soa como a culminação de uma transformação em curso há anos. “Pecadores” lidera a disputa com 16 indicações, estabelecendo um novo recorde para um único filme. “Uma Batalha Após a Outra” vem em seguida, com 13, apenas uma abaixo da marca anterior. Juntos de “Frankenstein”, “Marty Supreme” e “Valor Sentimental”, os cinco títulos mais indicados somaram 56 nomeações — tornando esta a corrida mais concentrada do século 21, possivelmente de toda a história da premiação.

Se a escala deste ano é excepcional, a direção não é inédita. Nas últimas duas décadas, o Oscar passou a ser dominado por um grupo cada vez menor de filmes. A “fatia” de indicações não necessariamente encolheu, mas está sendo dividida entre menos concorrentes.

No início dos anos 2000, o cenário era diferente. Entre 2000 e 2008, uma média de mais de 18 filmes conquistava ao menos duas indicações por ano. Os líderes daquele período geralmente acumulavam cerca de sete nomeações cada. Em 2005 — frequentemente citado como um ano de grande diversidade — 22 produções receberam múltiplas indicações. O vencedor de melhor filme naquele ano, “Menina de Ouro”, obteve sete indicações, um número robusto, mas longe de ser um domínio absoluto.

O contraste com o presente é evidente. Neste ano, apenas seis filmes respondem por mais da metade de todas as indicações — isso em um sistema expandido que permite até 10 indicados a melhor filme e conta com a adição de uma nova categoria, melhor elenco. Apesar dos esforços estruturais para ampliar o campo, o reconhecimento está cada vez mais concentrado no topo.

Observadores da indústria atribuem essa concentração a tendências sobrepostas no mercado cinematográfico. Em primeiro lugar, os grandes estúdios de Hollywood produzem menos filmes do que no passado. Dados do setor indicam que os seis maiores estúdios lançam hoje cerca de 35% menos títulos do que nos anos 2000. A contração é particularmente acentuada entre os estúdios tradicionais. A 20th Century Fox, outrora prolífica, opera agora como divisão da Disney com um catálogo anual reduzido. A Paramount, que costumava lançar cerca de 15 filmes por ano, não atinge dois dígitos há quase uma década.

Universal e Sony são exceções, tendo mantido ou até ampliado modestamente sua produção. Não por acaso, ambas preservam divisões especializadas — Focus Features e Sony Pictures Classics — historicamente associadas a filmes voltados para premiações. Diversos estúdios concorrentes fecharam selos semelhantes, como Warner Independent e Paramount Vantage. A Miramax, antes uma máquina de Oscars, tornou-se essencialmente uma marca de catálogo.

Cena de “Uma Batalha Após a Outra” | Fotos: Divulgação

A queda no número total de lançamentos amplos é menos dramática — talvez entre 10% e 20% ao longo de duas décadas — mas a composição do que é produzido mudou profundamente. O cardápio atual dos estúdios privilegia franquias baseadas em propriedades intelectuais consolidadas e filmes de gênero de menor orçamento. Em 2025, ação e aventura responderam por mais da metade da bilheteria, com o terror em terceiro lugar. Já os dramas adultos — tradicional espinha dorsal das campanhas ao Oscar — representaram apenas 7% da receita de ingressos, cerca de metade da participação de 20 anos atrás. A comédia caiu ainda mais.

À medida que os estúdios migraram para projetos de grande escala e espetáculo, produtores independentes e plataformas de streaming ocuparam o espaço do prestígio. Netflix e Apple financiaram três dos filmes mais indicados deste ano, embora a Amazon permaneça como o único streamer a investir consistentemente em lançamentos expressivos nos cinemas. Ainda assim, essas empresas também recalibraram suas estratégias recentemente, priorizando projetos de apelo comercial mais amplo em detrimento de apostas focadas no circuito de festivais e premiações.

Paralelamente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passou por transformações. Após ignorar “O Cavaleiro das Trevas” em 2008, a instituição ampliou, em 2009, o número de indicados a melhor filme para acomodar títulos mais populares. Ironicamente, essa expansão coincidiu com uma valorização crescente de distribuidores independentes e do cinema de autor. Empresas como A24 e Neon tornaram-se presenças frequentes no palco, enquanto produções de estúdio que se destacam costumam carregar a assinatura de diretores de prestígio como Christopher Nolan ou Martin Scorsese.

O quadro de votantes também se diversificou geograficamente. Um influxo significativo de membros internacionais na última década alterou preferências estéticas, e quatro filmes com múltiplas indicações neste ano foram produzidos em idiomas diferentes do inglês. A Academia passou a premiar com regularidade obras de circulação comercial limitada nos Estados Unidos. O vencedor de melhor filme do ano passado, “Anora”, arrecadou apenas US$ 20 milhões no mercado doméstico.

Essa mudança é frequentemente associada à queda na audiência televisiva do Oscar. O público caiu mais da metade desde o pico no fim dos anos 1990, estabilizando-se em torno de 20 milhões de espectadores nos últimos anos. Ainda assim, os dados complexificam a narrativa de que os indicados seriam uniformemente obscuros. A média de bilheteria dos concorrentes a melhor filme, na verdade, aumentou desde o início dos anos 2000, impulsionada por sucessos como “Top Gun: Maverick”, “Wicked” e “Oppenheimer”. Em muitos anos, a ampliação do número de indicados produziu uma lista híbrida, combinando blockbusters e produções independentes.

Cena de “Valor Sentimental”, filme norueguês com nove indicações ao prêmio em 2026

Mesmo assim, 2026 se destaca. Excluindo os anos de pandemia, trata-se da seleção menos popular comercialmente desde 2014. A média de arrecadação doméstica dos indicados é de apenas US$ 65 milhões. Quando os estúdios produzem menos dramas de orçamento médio e projetos de prestígio, a Academia dispõe de menos opções para distribuir reconhecimento de maneira ampla. Nesse cenário, os votantes tendem a se concentrar nos poucos filmes que parecem simultaneamente ambiciosos e culturalmente relevantes.

O que é inegável é que as indicações ao Oscar já não impulsionam a bilheteria como antes. Em 2005, os indicados a melhor filme arrecadaram quase tanto após o anúncio das nomeações quanto antes. Uma década depois, impulsionados por “Sniper Americano”, os ganhos pós-indicação chegaram a superar os números anteriores. Neste ano, por outro lado, os indicados acrescentaram apenas US$ 22 milhões desde o anúncio — cerca de 3% de sua receita acumulada.

O Oscar enfrenta desafios estruturais mais amplos: um ecossistema midiático fragmentado, a queda na frequência às salas de cinema e a multiplicação de alternativas de acesso a celebridades. Se a premiação é menos popular porque os filmes são menos populares — ou se ocorre o inverso — permanece uma questão em aberto. O que está claro é a tendência. Em uma indústria que produz menos dramas com perfil de premiação, a Academia concentra sua atenção em um círculo cada vez menor de concorrentes. O resultado é uma cerimônia definida menos pela diversidade e mais pela hegemonia.

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