Redação Culturize-se
Perder-se, para Wim Wenders, nunca foi sinônimo de fracasso. Ao contrário, o cineasta alemão vê nisso uma bênção: “Quando você está perdido, realmente abandona a si mesmo. Simplesmente está lá”, costuma dizer. Por mais de cinco décadas, ele convidou o público justamente a se perder em seus filmes – obras que cruzam paisagens desconhecidas e silenciosos espaços sentimentais.
Neste 14 de agosto, Wenders completa 80 anos. A data é marcada por homenagens que vão muito além das telas. Na cidade de Bonn, o museu Bundeskunsthalle apresenta uma ampla retrospectiva de sua obra – filmes, fotografias, gravuras e escritos – guiada por uma pergunta central: o que significa mover-se pelo mundo? Ao mesmo tempo, um miniciclo em São Paulo (salas Reag Belas Artes e Cinesystem Frei Caneca) e no Rio de Janeiro (Cinesystem Botafogo) exibe alguns de seus títulos mais emblemáticos até 3 de setembro.
O movimento, para Wenders, nunca foi apenas deslocamento físico, mas descoberta. Nascido em Düsseldorf ao fim da Segunda Guerra Mundial, cresceu entre escombros, sonhando com os lugares distantes que via nas enciclopédias do avô e nos jornais do pai. Esse impulso infantil moldou uma carreira que atravessou continentes e gêneros.
Ele surgiu nos anos 1970 como um dos nomes centrais do Novo Cinema Alemão, ao lado de Werner Herzog e Rainer Werner Fassbinder. Sua trilogia de road movies, “Alice nas Cidades” (1974), “Movimento em Falso” (1975) e “No Decurso do Tempo” (1976), já revelava um tema recorrente: personagens em deslocamento físico e emocional, buscando conexão ou pertencimento.
Em “Alice nas Cidades”, por exemplo, Phillip Winter (Rüdiger Vogler), um jornalista em bloqueio criativo, deveria acompanhar a pequena Alice até a mãe no aeroporto. O encontro não acontece, e ele se torna seu companheiro de viagem. Como o vagabundo de Chaplin, o jornalista encontra uma história não planejada, que surge como incômodo e afeto ao mesmo tempo.

No final da década de 1970, Wenders expandiu seu alcance com “O Amigo Americano” (1977), adaptação de Patricia Highsmith que uniu Hamburgo e Paris em um enredo de manipulação e morte. O filme abriu caminho para sua fase americana, iniciada sob a tutela de Francis Ford Coppola em “Hammet” (1982). Essa experiência de controle criativo limitado contribuiu para o tom melancólico de “Paris, Texas” (1984), seu grande marco internacional. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do BAFTA de melhor diretor, o filme acompanha um homem que reaparece no deserto sem memória, em busca de reconectar-se com o filho e a ex-mulher. É uma obra sobre perda, reconciliação e a própria desilusão de Wenders com os Estados Unidos, terra prometida do cinema.
Essa desilusão já aparecia em “O Estado das Coisas” (1982), sobre uma equipe de filmagem paralisada à espera de recursos, e voltaria em “O Céu de Lisboa” (1994), onde um técnico de som chega a um set apenas para descobrir que o filme foi abandonado. Nesse percurso, Wenders questiona a sobrevivência do cinema moderno e a possibilidade de conciliar arte e mercado — dúvidas que atravessam parte de sua filmografia.
Ainda assim, seu olhar poético encontrou novas formas em “Asas do Desejo” (1987), ambientado em uma Berlim dividida e povoado por anjos que observam a vida humana até que um deles decide experimentá-la. E também na música, que se tornou parte vital de sua narrativa. O documentário “Buena Vista Social Club” (1999) não só foi indicado ao Oscar como ajudou a revitalizar a música tradicional cubana, vendendo mais de 8 milhões de álbuns.
Versátil, Wenders também assinou videoclipes, como “Stay (Faraway, So Close!)”, do U2, e construiu uma obra fotográfica marcada por espaços abandonados, estradas vazias e geografias silenciosas. Para ele, a fotografia e o cinema compartilham a busca por capturar o vazio e a dignidade dos lugares.
Nos últimos anos, Wenders manteve seu espírito de explorador. “Dias Perfeitos” (2023), ambientado em Tóquio, acompanha a rotina de um zelador cujas tarefas ordinárias revelam a sacralidade da vida diária. O filme rendeu a Koji Yakusho o prêmio de melhor ator em Cannes e representou o Japão no Oscar de 2024. No mesmo ano, ele lançou “Anselm”, um documentário em 3D sobre o artista plástico Anselm Kiefer, seu contemporâneo.

Fora das telas, o cineasta confessa ter evitado zonas frias — ainda sonha com a Patagônia, o Polo Norte e a Antártida. Prefere relembrar os tempos pré-GPS, quando se perder em uma cidade nova era possível e revelador: “Quando você está perdido, você vê. Se tem seu mapa e sabe o caminho, não vê tanto quanto nos momentos em que está perdido”.
As homenagens por seus 80 anos celebram um pensador inquieto sobre o próprio cinema. Entre estradas e desertos, aeroportos e cidades estrangeiras, Wenders construiu uma filmografia que é, ao mesmo tempo, diário de bordo e mapa emocional. E talvez seja essa a maior lição que deixa: perder-se não é se afastar do caminho, mas encontrar novas maneiras de olhar o mundo e a si mesmo.