Redação Culturize-se
Vivemos uma era em que o anacronismo tornou-se uma ferramenta política. A imagem de Donald Trump como um cavaleiro templário vendida em marketplaces digitais não é apenas um capricho estético de mau gosto. Ela representa a materialização simbólica de um desejo coletivo: o retorno a uma ordem hierárquica, religiosa e homogênea que, embora historicamente nunca tenha existido como é sonhada, torna-se utopia para uma parte crescente do espectro político global. O kitsch medieval encarnado por Trump é menos sobre o passado do que sobre a angústia diante de um futuro incerto e a necessidade de dar forma concreta a um sentimento de perda, de identidade, de controle, de soberania.

Neste cenário, a extrema-direita constrói uma narrativa robusta. Apropria-se de símbolos, reconta a história à sua maneira, converte templários em super-heróis digitais e transforma ressentimento em missão divina. Enquanto isso, o campo progressista, perplexo, reduz Trump e seus pares a caricaturas: burros, autoritários, ignorantes. Essa simplificação, ainda que compreensível como reação moral, é intelectualmente preguiçosa e politicamente inócua. O progressismo parece ter abdicado da capacidade de pensar estrategicamente a política, limitando-se a torcer pela falência do adversário, em vez de articular uma proposta convincente de mundo.
Ao apresentar-se como cavaleiro cruzado, Trump está dizendo muito mais do que parece. Ele não apenas escancara a falência de uma ordem multilateral em ruínas, mas propõe uma nova lógica de força bruta, onde os Estados não fingem mais estar submetidos a regras comuns. O que emerge é um “neoimperialismo” de blocos, guiado por arsenais e algoritmos, onde o poder se exerce sem véus e a moralidade é um obstáculo descartável. É nesse campo que a extrema-direita joga com desenvoltura – e é também nesse campo que o progressismo parece se recusar a entrar, como se ainda vivesse sob as regras do mundo de ontem.
O problema é que a política, como a história, não aceita vácuos. A tentativa progressista de restaurar um passado recente idealizado, com globalização regulada, cooperação institucional e fóruns multilaterais, não seduz mais – nem mesmo os que teoricamente se beneficiaram dela. A crise da representação é, também, uma crise da imaginação. Quando o inimigo empunha espadas virtuais, a resposta não pode ser apenas convocar conferências sobre democracia.
Estamos, portanto, entre dois desertos: o da nostalgia reacionária e o da paralisia progressista. Se o primeiro avança a galope, fantasiado de cruzado, o segundo contempla em silêncio as ruínas da ordem que perdeu. A tarefa filosófica do presente não é apenas denunciar o absurdo da estetização medieval da política, mas confrontar a urgência de criar novos símbolos, novas narrativas e novos horizontes. O mundo não precisa de mais templários; ele precisa de quem ouse imaginar o que virá depois da cruz.