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O reggae volta a pulsar na música brasileira

Redação Culturize-se

A música brasileira vive um momento singular de reconexão com o reggae. Não se trata de modismo passageiro, mas de um movimento consistente que une gerações, resgata ancestralidade e reafirma a capacidade democrática de um gênero que há décadas dialoga com a identidade nacional. No centro dessa renovação está IZA, que acaba de anunciar sua estreia oficial no universo reggae com os singles “Caos e Sal” e “Tão Bonito”, lançados em setembro. Ao lado dela, nomes consagrados como Cidade Negra e Vanessa da Mata também abraçam o gênero, cada qual à sua maneira, consolidando 2025 como um ano decisivo para essa sonoridade no país.

Para IZA, a chegada ao reggae representa muito mais que uma experimentação estética. É o resultado de uma pesquisa profunda sobre identidade, pertencimento e resistência. Os novos singles materializam uma jornada que conecta Kemet — nome original do antigo Egito, que significa “terra preta” — à Etiópia e aos Lençóis Maranhenses, criando uma cartografia afetiva da ancestralidade negra. “Sempre desejei explorar o reggae, um estilo que considero extremamente democrático por suas diversas vertentes, do R&B ao rap, do tradicional ao dancehall”, explica a cantora, que enxerga no gênero a mesma riqueza de possibilidades que encontra no samba.

Foto: Divulgação

A estética visual que acompanha os lançamentos reforça essa dimensão ancestral. Inspirada em pigmentos egípcios que simbolizam realeza e espiritualidade, a paleta de cores dialoga com divindades como Bastet e Nefertiti, enquanto incorpora a simbologia dos Adinkras, ícones africanos portadores de saberes milenares como o Sankofa — símbolo que representa a importância de revisitar o passado para construir o futuro. É exatamente essa consciência histórica que atravessa “Caos e Sal”, composição que IZA desenvolveu com Rafa Chagas, Nave e Fejuca. A letra funciona como manifesto geracional: “Bem que minha vó falou / Que a força dos ancestrais / Nos protege da dor”, canta, enquanto confronta estruturas de poder com versos diretos sobre “gente querendo / pensando que tá no comando”.

Precursores

Se IZA representa a nova geração que se apropria do reggae com olhar contemporâneo, o Cidade Negra encarna a própria história do gênero no Brasil. A banda retorna em 2026 com a turnê “De Agora em Diante”, marcando três décadas de uma trajetória que tornou o grupo sinônimo de reggae brasileiro. Mais que nostalgia, a turnê se apresenta como manifesto de resistência e renovação, prometendo músicas inéditas ao lado de clássicos como os do álbum “Sobre Todas as Forças”, que também completa 30 anos. “De agora em diante, o futuro tem batida, tem poesia, tem verdade”, sintetiza Toni Garrido, numa frase que captura o espírito de continuidade e transformação que define o momento atual da banda.

A programação prevê apresentações nas principais capitais brasileiras, consolidando o Cidade Negra não apenas como referência histórica, mas como força ativa na cena musical contemporânea. A proposta de unir raízes e futuro encontra eco na própria natureza do reggae, gênero que desde sua origem jamaicana carrega mensagens de paz, liberdade e consciência política; valores que ganham urgência renovada no contexto brasileiro atual.

Entre a estreia de IZA e a celebração do Cidade Negra, Vanessa da Mata posiciona-se como ponte entre gerações. Em seu novo álbum “Todas Elas”, lançado em dezembro de 2024 com onze faixas autorais, a cantora reserva espaço para o reggae ao lado de João Gomes na música “Demorou”. A escolha não é casual: Vanessa reconhece na voz grave do artista pernambucano um “casamento perfeito” com a sua, criando uma fusão que atualiza o reggae sem abandonar suas características fundamentais. “Esse álbum poderia contar a história de várias mulheres”, define a cantora, apontando para a multiplicidade de identidades que o trabalho abriga.

Foto: Divulgação

O que une esses três movimentos — a chegada de IZA, o retorno do Cidade Negra e a versatilidade de Vanessa da Mata — é a compreensão do reggae como espaço de liberdade criativa e afirmação identitária. Longe de ser mera apropriação de uma sonoridade estrangeira, o reggae brasileiro consolidou-se como linguagem própria, capaz de absorver influências que vão do samba ao afrobeat, do R&B ao pop, mantendo sempre seu núcleo de resistência e celebração.

Num momento em que a música brasileira se fragmenta em nichos cada vez mais específicos, o reggae emerge como território de encontro. É o gênero que permite a IZA revisitar o Egito ancestral enquanto fala das grandes cidades contemporâneas; que possibilita ao Cidade Negra celebrar três décadas sem soar datado; e que oferece a Vanessa da Mata mais uma camada em sua já extensa paleta sonora. O reencontro está acontecendo, e a batida segue forte.

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